segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Hello Darkness, My Old Friend



Estou em casa, à tarde, sentado na mesa de meu escritório, olho para aquelas notas, apenas percebo a quantidade de notas baixas, nenhuma acima de 6,0. Penso se eu ensinei mal, se sou mal nisso, olho para aquela pilha de papéis, penso comigo mesmo “Por que eu trago todo esse trabalho pra casa?! Caralho, quanta merda que esses alunos escrevem nas questões!”, resolvo tirar uma pausa de toda essa monotonia.
 
Vou até cozinha, chegando lá não acredito no que vejo, “puta que pariu”, olho atônito para a pia, “ah não, puta que pariu, puta que pariu, puta que pariiiu, PU-TA-QUE-O-PA-RIU”, as mãos na cintura, solto o ar em bufadas, bato com a mão direita em minha própria testa, me aproximo da cena como um perito em um caso de assassinato de serial killer, massageio minhas têmporas com os indicadores, já sabendo o que vou encontrar mas ainda em descrença, confirmo meu medo: a panela com meu molho à bolonhesa a.k.a meu futuro almoço, infestada de formigas. Eu deixo a panela esfriando por um tempo e é isso que me acontece, formigas, numa panela de molho de tomate, “Você vai levar essa porra desse molho de tomate pra tua colônia, vai, arrombada? Me responde filha da puta, você não vai fazer nada com essa merda, só fudeu meu almoço, puta que pariu!”, puta que pariu.

Em fúria cega, apenas desejo levar comigo o máximo de formigas que conseguir. Jogo a panela debaixo da pia, misturo água ao molho de tomate que despejo ralo abaixo. A água bate na panela, espirra por toda a cozinha e por minha roupa, a carne moída entope a pia, que agora mantém uma sopa de tomate, formiga e suor, sinto formigamentos pelo meu braço, formigamentos literais, centenas, milhares delas pelo meu corpo, consigo perceber uma que anda ao redor dos meus olhos, sem conseguir entender como ela foi parar lá, enquanto enfio a mão na mistura cor de sangue, tentando retirar os pedaços que estão impedindo a passagem da água. 

Ensopado pela água avermelhada, em estado delirante de fome, mãos sujas de carne moída que ao toque me lembram isopor, já amolecida pela água, o asco toma conta de mim, já certo de que há uma colônia de formigas se formando no meu ouvido, imbuído em um mix de cólera, depressão, arrependimento, uma série de flashbacks de derrotas me atormenta, o ano novo em que passei preso em uma escada, a vez que disse pra Carol que eu a amava e ela me respondeu com “Boa sorte”, a outra vez que, embriagado, abri meu coração pra Carol no Facebook, ela visualizou a mensagem e só me respondeu 4 meses depois, o dia em que eu matei o Nêmesis mostrão de primeira e o PS1 desligou sozinho antes de eu ver o final do jogo, o desemprego, o vazio existencial, a solidão, tudo culminando nesta sombra do que antes poderia ser, em posição fetal no chão gelado da cozinha, me pergunto qual momento da minha vida foi essencial para eu ter chegado a este ponto.

CORTA PARA:

INTERIOR DE UMA SECRETARIA EM REALENGO – FIM DE TARDE (FLASHBACK)

Um jovem Everton Loureiro de 21 anos senta-se concentrado, de olhinhos fechados, em uma espécie de oração íntima, diante de um MAÇO DE PAPÉIS. É possível ler na primeira folha “Contrato de Matrícula, Universidade Castelo Branco, 2015”.

Ele passa a folha. No topo da primeira página, lemos “Marque a opção de curso”. Acompanhamos a CANETA BIC PRETA passar por várias opções até preencher uma. Revelamos a opção: “História”.
A câmera se afasta da papelada, saindo pela janela da sala, se afastando cada vez mais, enquanto ouvimos “The Sound of Silence” de Simon & Garfunkel.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Ilegal

Durante algum tempo estou com algo na cabeça, o que é ilegal? Sabe, segundo o dicionário ilegal é simplesmente a quebra de normas impostas em algum momento, dito isso vejo que todos nós somos vilões, pois já quebramos alguma norma em certos momentos de nossas vidas. 


Nas aulas de Antropologia aprendi que o brasileiro tem uma “malandragem” e um “jeitinho” para burlar regras, mas penso que isso não é uma característica apenas do brasileiro, mas do ser humano em geral, se não fosse burlar as leis não existiriam vilões nas histórias. 


Revendo novamente “Breaking Bad”, captei um diálogo lá na segunda temporada, onde Skyler e Walter transam dentro no carro, no meio do estacionamento, ela pergunta no fim “Nossa, por que foi tão bom?” e ele responde “Porque foi ilegal”, puta que pariu, e não é que ele tinha razão? Quando fazemos as coisas ilegais, nos sentimos mais vivos, nos da mais sensação de poder. Lembro que eu pulava a estação de trem pra ir até a escola na época da minha adolescência, sendo que eu não precisava pular, todos os dias meu pai me dava dinheiro para eu ir e voltar de trem, sendo que eu pulava e ainda guardava o dinheiro para sair com algumas pretendentes e amigos. Lembro disso hoje em dia e não me arrependo, faria tudo de novo, porque eu sentia uma sensação boa ao pular a estação e burlar a lei. Tenho várias outras histórias e não me arrependo de nenhuma delas. 


Não digo que todo mundo tem que sair por aí fazendo arrastões e matando uns aos outros, não interprete mal, digo que se desafiar a “burlar o sistema” pelo menos alguma vez te da uma sensação de vitalidade, nem que seja por um curto período de tempo, seja dormir no trabalho, matar aula, enfim, são esses desafios que se forem feitos pelo menos uma vez na vida já serão o suficiente para ter histórias para contar. 


Atualmente fiquei careta e correto demais, talvez pelo amadurecimento, mas eu realmente sinto muita falta daquela época, daqueles momentos, tento voltar de vez em quando, mas as vezes minha mente e meu corpo não deixam. O que digo é o seguinte, às vezes o ilegal pode ser bom, e pode valer a pena o risco, em algumas situações você pode até estar correto e o ilegal pode dar tão certo que se torna legal, como o álcool nos anos 30 em relação a hoje em dia, por exemplo. Afinal, algumas leis foram feitas para serem burladas... 


E respondendo a pergunta do início que fiz, “O que é ilegal?”, digo que tudo pode ser ilegal em algum momento, tudo o que fazemos pode ser arriscado, e por que isso? Talvez o motivo seja que nos acomodamos desta forma, tentamos sempre ser algo a mais, alguém superior, alguém como ele ou ela, e não medimos esforços para alcançar os nossos objetivos, e criamos vários tipos de planos na nossa cabeça, alguns deles ilegais, então digo que todos nós em algum momento em nossas vidas fomos fora da lei em potencial. 


Obs: Eu não sou um traficante de metanfetamina... 


Obs²: Não culpe os meus textos pelos seus atos idiotas...

domingo, 20 de dezembro de 2015

Minha Vida Injusta - Parte Final: 20 de Dezembro de 2015



“A morte não tem nada de espetacular, qualquer um pode morrer”.

Essas últimas duas semanas foram as mais difíceis de minha vida, eu estava me sentindo tão bem, até que voltei a sentir dores no pulmão, além de calafrios e desmaios. Fui ao médico e recebi a notícia inevitável: O meu câncer havia voltado, maior e ainda mais agressivo, a quimioterapia não estava adiantando mais, então o médico me mostrou a única opção de uma forma desesperada:

- Henrique, tentaremos operar, porém é uma operação muito arriscada, é difícil sobreviver à operação, e mesmo se você sobreviver, ainda corre o risco do câncer voltar. – Achei legal o jeito de o doutor dizer que eu sou apenas um morto caminhando.

Eu estava muito mal, sabia que se continuasse assim eu não duraria mais do que uns poucos dias, conversei com a minha família e resolvemos arriscar, marcamos a data da operação e me internaram há mais ou menos três dias atrás... Bem... Hoje é o dia da operação...

Minha família não saiu daqui do quarto do hospital hoje, decidi falar a sós com cada um. Primeiro, a Luana.

- Luana... Quero que você faça algo para mim... Eu guardo durante a minha vida inteira um diário dos Beatles, está no meu armário, preciso escrever nele, você o busca para mim? – A minha voz estava muito fraca, já não estava conseguindo respirar direito.

- Tudo bem, meu amor.

- Luana... Se eu não sair daquela sala de cirurgia vivo... Eu quero que você saiba...

- Shhhhhh. – Luana tampou a minha boca com o seu dedo. – Não diga isso, vai dar tudo certo... Você irá sair de lá vivo.

- Eu quero que você saiba... – Eu ignorei e continuei falando. - Que você foi a única mulher que eu realmente amei em minha vida...

Luana me abraçou e me beijou.

- Eu sei, meu amor... Eu sei... – Ela começou a chorar.

Pedi para a Luana chamar a minha mãe quando saísse.

- Meu filho, se você soubesse a dor que estou sentindo no coração ao ter ver assim...

- Sim, mãe. Estou te decepcionando.

- Não, meu filho. Você nunca me decepcionou... Se eu pudesse, eu entraria naquela sala de cirurgia no seu lugar.

- Sabe que eu não deixaria isso acontecer... Mãe, eu sei que você está sofrendo... Mas quero que você saiba... Nunca é tarde demais... Não diga que você está velha... Você se interessa por medicina, me prometa que você começará a estudar pra valer.

- Sim, meu filho... Eu prometo... – Minha mãe me abraçou, ela já estava chorando o dia inteiro. – Meu filho, quando você reencontrar o seu pai... Diga... Que eu sinto muita saudade.

- Ok, mãe, eu prometo... Chame o Jimmy.

O pequeno Jimmy entrou, correndo em direção aos meus braços, começou a chorar muito enquanto descansava sua cabeça em cima de mim.

- Não morre, pai... Não morre...

- Jimmy... Jimmy! – Eu o levantei. – Você se lembra da sua promessa, não é?

Jimmy respirou fundo, estava soluçando de tanto chorar, ele se acalmou um pouco e disse:

- Cuidar da minha mãe e da minha avó...

- E o que mais?

- Não me envolver com drogas...

- Isso, meu filho! – Eu voltei a abraçá-lo. – Eu queria muito poder acompanhar o seu crescimento.

- Você acompanhou pai, um dia quero me tornar o homem que você é. – Ele olhou no fundo dos meus olhos – Eu irei cumprir a minha promessa, pai... Custe o que custar...

- Eu sei que você irá cumprir, meu filho. Eu acredito em você.

Jimmy saiu do quarto, pensei “que bela família”, olhei para o relógio, faltavam menos de duas horas para a operação, comecei a chorar sozinho no quarto, mesmo sem ter nem forças para produzir lágrimas, me imaginei olhando para mim mesmo ali naquela cama, e vi claramente, lá estava eu, tão magro, pequeno, frágil, totalmente insignificante, apenas mais um moribundo naquele lugar.

Depois pensei em tudo que eu fiz durante toda a minha vida, e percebi que eu ironicamente “vivi” após receber o meu diagnóstico, desde as viagens até o pôr do sol visto do portão de minha casa, tudo aquilo foi maravilhoso. É irônico, o ser humano só começa a viver realmente e dar importância para as pequenas coisas quando sabe que tem pouco tempo de vida.

Após um tempo comecei a lembrar de coisas do meu passado, das besteiras que fiz quando jovem, e pensando que tudo poderia ter sido diferente, lembrei da Rafaela, do Jimmy, do meu pai, do Jorge... Parece que são esses momentos que fazem a vida, estes momentos...

Só lamento ter que ir e deixar coisas pendentes aqui, como o novo livro que comecei a escrever a alguns meses atrás e que nunca será concluído, ou séries que não terminarei de assistir, livros que não terminarei de ler, listas de filmes que nunca irei assistir, e o meu filho que não irei ver crescer.

Faltando mais ou menos uma hora para a cirurgia, chega a Luana com este velho diário dos Beatles, me entrega, eu peço uma caneta, ela procura em sua bolsa.

- Por que isso é tão importante para você? – Ela pergunta enquanto me entrega a caneta.

- Eu não sei... Apenas é...

E a partir do momento em que comecei a escrever aqui hoje, eu percebi que neste simples caderno velho, algo tão descartável que ganhei de natal, nestas páginas estão a minha vida, toda a minha história, algo tão simples que se tornou tão importante para mim, o único “companheiro” que eu realmente tive durante toda minha vida.

As páginas chegaram ao fim, não existe mais muito espaço nesse diário, apenas uma folha frente e verso em branco, que irei manter desse jeito caso alguém que leia isso queira fazer algum tipo de anotação ou crítica sobre a minha vida.

Faltam 15 minutos para eu entrar na sala de cirurgia, estou sentindo muitas dores nesse momento, a enfermeira já entrou aqui e disse para eu me preparar... Já estou preparado, pronto para ir embora desse mundo, para alcançar o meu sono eterno.

Minha família acabou de entrar aqui no quarto, me abraçaram, estão chorando, também estou chorando, confesso que estou com um pouco de medo. Olho para todos eles e a única coisa que consigo dizer para a minha família neste momento é:

- Eu amo vocês... E sempre amarei... Eternamente...

Eternamente... Sim, estou me sentindo eterno, pois agora eu sei que mesmo após eu ter ido, a minha família continuará me amando, eternamente...

Hoje será o último dia em que irei escrever aqui, nesta cama de hospital com antibióticos em minhas veias, parece que finalmente cheguei ao meu fim, pelo menos toda esta minha vida injusta irá me pregar a sua última peça.

Não sei quem irá encontrar este diário para lê-lo, só gostaria que fosse alguém que me entenda, e que ao navegar em algumas páginas anteriores que escrevi no decorrer dos anos, perceba que, se eu pudesse voltar no tempo, não mudaria em nada a minha vida, inclusive todas as idiotices que fiz quando eu era jovem, finalmente, o melhor está por vir, finalmente conseguirei descansar.

Esta foi a minha vida injusta...

Henrique Soares, 20 de Dezembro de 2015.










Bem, acho que era o desejo do Henrique que alguém escrevesse nessa última folha desse diário, eu realmente não entendia porque isso era importante para ele, e agora eu entendo, após a sua morte resolvi ler tudo que estava escrito nestas páginas, e parece que o Henrique morreu sem saber ao certo quem ele realmente foi, então tentarei explicar.

Na verdade, Henrique se preocupava com todos ao seu redor, ele não pensava duas vezes se algo iria prejudicá-lo para ajudar alguém próximo, ele apenas ajudava.

Após a morte do seu amigo Jimmy e de seu assassino preso, Henrique foi visitá-lo na prisão, eu não entendia o motivo dele para querer visitar o assassino de seu melhor amigo, ele apenas olhou para mim e disse:

- Eu preciso olhar nos olhos dele, para ver se ele se arrepende.

Chegando na prisão, Henrique pediu para chamar o assassino e o outro meliante que o estava acompanhando na hora do crime, os dois sentaram na sala de visitas na nossa frente, olhei para Henrique naquele momento e ele estava pálido, mas seguro de tudo aquilo que ele deveria fazer naquele momento.

- Vocês tiraram a vida de um bom homem, ele não iria machucar vocês, ele tinha um futuro promissor, eu só preciso de uma explicação... Apenas uma explicação! – Henrique disse enquanto não desgrudava os seus olhos dos dois bandidos.

- Nós nunca tínhamos tirado a vida de alguém antes, não queríamos essa vida para a gente, éramos apenas “cobradores”, a gente não matava, porém estávamos sendo ameaçados pelo nosso chefe, tínhamos que matar, era o seu amigo ou nós, já dissemos tudo pra polícia, tudo sobre o nosso chefe, ele não pode escapar dessa. – O bandido que havia disparado contra o peito do Jimmy respondeu.

Henrique naquele momento viu a sinceridade no olhar de ambos os bandidos, eles estavam lacrimejando, naquele momento ele e eu percebemos o arrependimento nos olhares daqueles dois sujeitos.

- Eu os perdoo. – Foi apenas isso que Henrique disse para os bandidos antes de irmos embora.

Alguns meses depois vimos no noticiário que o chefe do tráfico acabou sendo baleado e morto durante uma operação policial, quando soube da notícia, Henrique não se animou, parecia apenas que ele sentia pena, talvez pena porque aqueles bandidos nunca iriam ter um amigo como o Henrique teve.

Quando eu estava grávida e descobrimos que era um menino, Henrique conversou comigo.

- Sonhei com o Jimmy esta noite, ele me disse que poderia viver para sempre, disse que a história dele não chegou a fim com a sua morte, que ele estava apenas vivendo um recomeço.

Após isso, decidimos colocar o nome de Jimmy em nosso filho, pois decidimos dar um recomeço para sua alma e livrarmos o sentimento de culpa dos ombros de Henrique.

Bem, Henrique, eu gostaria muito que você lesse isso que estou escrevendo aqui, mas sei que isso não será possível, mas quero que você saiba que sua mãe começou a estudar medicina, ela disse que você a mataria se não cumprisse a promessa.

Já o nosso filho está bem dedicado a cuidar da família, e disse que deseja ser um escritor no futuro, não como Nelson Rodrigues, mas igual a você.

Parece que Henrique não percebeu isso em vida, mas ele definitivamente mudou a vida de todos que tiveram contato com ele, principalmente a minha, Henrique me deu motivos para eu conseguir sorrir. Ele teve um legado, ele mudou a vida de muitas pessoas.

É irônico perceber que ele passou a vida inteira tentando escrever uma boa história, e no fim a melhor história de todas que ele acabou escrevendo foi a história de sua própria vida, eu a publicarei, Henrique, e todos os méritos serão seus, tenho certeza de que a história da sua vida será importante para alguém, assim como foi para mim.

Descanse em paz, meu amor.

Luana Soares.