sábado, 21 de dezembro de 2013

Retrospectiva 2013

Fim de ano chegou, e com ele a nossa reflexão sobre tudo o que vivemos durante o mesmo, e com este humilde Blog também é assim, então separei uma pequena retrospectiva sobre o Blog em 2013, e apesar de aparentemente eu ter ficado preguiçoso em relação a escrever nesse ano, os números até que são muito bons:

Contando com essa, foram no total 28 postagens que fiz este ano, bem menos do que em 2012, porém acho que foram posts de melhor qualidade em relação ao ano anterior.

Esses 28 posts conseguiram juntos 5.096 visualizações.

No total, o Blog recebeu 126.587 visitas este ano.

Foram 33 comentários recebidos.

O post que fez mais sucesso no Blog foi também o mais despretensioso do ano, "Sobre Baladas, Solidão e Pegação". Postado no dia 20 de Julho, o texto já tem 1.600 acessos, pelo jeito a galera gosta de ler e de pesquisar a palavra-chave "balada" no Google.

"Cinema" foi o tema mais comentado do Blog em 2013, foram 8 postagens sobre filmes ou com alguma relação com o cinema, incluindo críticas.

Por fim, em 2013 o Blog fez 3 anos de existência.

E por aqui chega ao fim a temporada 2013 do "Nunca Viu", se eu estiver vivo e se o meu pc ainda estiver funcionando, voltarei em 2014. Posso dizer que 2013 foi um ano bem legal na minha vida e ao mesmo tempo um ano bem difícil, tento levar um otimismo para 2014, ainda sem expectativas para o próximo ano, só espero estar bem. Pra vocês que me acompanharam este ano, desejo um feliz Natal e se tudo der certo a gente se vê no ano que vem...

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

14 Metas Para 2014

  1. Fazer um gol de bicicleta no futebol de sexta;
  2. Não me machucar ao tentar mandar uma bicicleta no futebol de sexta;
  3. Ter dois empregos;
  4. Voltar a tocar violão;
  5. Aprender a jogar o Jogo do Bicho e tentar fazer disso um meio digno e lucrativo de sustento;
  6. Terminar de assistir a filmografia do Al Pacino;
  7. Comparecer à gravação do Especial de fim de ano do Roberto Carlos na Globo;
  8. Escrever mais (emails coorporativos não contam como literatura);
  9. Não comprar nenhum livro até terminar os que tenho aqui em casa;
  10. Aprender a tocar esse solo do Eric Clapton em “While My Guitar Gently Weeps”;
  11. Não participar de nenhum amigo oculto;
  12. Me manter saudável por um período de tempo maior que dois meses;
  13. Conseguir uma Internet melhor;
  14. Comparecer a algum jogo da Copa com a barriga pintada com a bandeira de algum país alternativo (preferencialmente a Croácia, eu fico muito bem de xadrez).

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

School's Out

Fim de ano, todos se preparando para o natal, para aquela baboseira de "ano novo, vida nova", e para os mais jovens, estudantes, é hora de correr, estudar para não repetir de ano. Confesso que nunca gostei da escola, achava que sempre atrapalhava a minha vida, porém, nos últimos dias, quando descobri que eu finalmente terminei os estudos (pelo menos do ensino médio) senti um pouco de saudade, pessoas que eu provavelmente nunca mais irei ver, como alguns professores que ajudaram a formar o meu caráter, toda a merda que eu vivi até chegar ali, enfim, quem é mais velho entende o que eu tô falando.

A escola, principalmente o ensino médio, pode mudar nos próximos anos, mas sempre vai ter um "grupinho da bagunça", um cara que se salva no último bimestre, um professor que todos amam e outro que todos odeiam, disso eu devo sentir falta, de todas essas situações que eu já vivi, e sei que a escola não vai acabar só porque eu concluí os estudos, e que posso sempre passar ali em frente e lembrar, pois todo ano enquanto alunos antigos saem, outros novos entram.

Sei que no fundo todas as escolas são iguais porque, além de eu ter estudado em sete escolas nesta minha jornada, esta semana assisti uma a peça de teatro, sobre a escola, feito por estudantes, uma peça de esquetes, bem simples, para alguns ali na plateia até mesmo uma peça despretensiosa, para mim uma pequena melancolia ao me lembrar que posso não viver mais os momentos representados de forma satírica durante aquelas esquetes.

Apesar de ter sido uma "peça sobre a escola realizada por alunos da escola dentro da quadra da escola", não se deixou levar pela repetitividade, e foi além de algumas limitações de cenários e atuações (mas confesso que tinha um cara que roubava a cena, acho que ele se chama Marcelo, se você está lendo isso, saiba que você é um bom ator), a peça teve um roteiro bem escrito e uma trilha sonora bacana.

Mesmo estudando teatro e já ter atuado algumas vezes, eu não sou muito ligado em peças, acho uma plataforma de entretenimento limitada comparada ao cinema, por exemplo. E acho que roteiros mais sérios não funcionam muito bem em teatros, o que funciona melhor neste lugar são esquetes, que na maioria das vezes são cômicas, mas no caso dessa peça, eu acabei deixando o lado cômico do roteiro de lado, e no lugar apenas tentando lembrar do momento em que eu vivi que era equivalente ao apresentado durante a esquete.

Sei que pode vim a faculdade a seguir, mas acho que não vai ser a mesma coisa. E eu que achava que a escola, principalmente o ensino médio, nunca iria me fazer falta, taí o momento onde eu paro pra refletir e chegar a conclusão de que eu estava errado, e que nesses anos de colégio eu sei que aprendi muita coisa, e são coisas além das matérias, aprendi a ser alguém.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Um Conto Sobre Adultério, Detetives e Cheiro de Sexo



- Eu sei que o senhor está  acostumado com casos de adultério. - disse o homem grisalho, de rosto magro e maneiras finas. - Mas este é um adultério diferente.

Aquela declaração não me espantou. Todos pensam que seus casos são diferentes.

- Não tem problema - eu disse. - Estamos preparados para enfrentar qualquer tipo de adultério. Fique à vontade, conte a sua história. Aceita um uísque?

- Não, obrigado.

Fez uma pausa; eu olhando para ele.

- Senhor Bellini, eu sou um homem casado. - disse finalmente.

Quase todos são, pensei, e geralmente têm uma mulher que cede aos encantos de outro homem.

- Mas o meu casamento…

Talvez fosse casado com alguém do mesmo sexo. Isso tem acontecido com mais freqüência ultimamente. Interrompi sua frase:

- Não fazemos julgamentos morais aqui. Se o seu casamento é diferente dos outros, o senhor entende…para nós não há o menor problema.

Ele demorou um pouco para entender.

- Não! Não é  isso, eu não sou um homossexual, senhor Bellini. Me pareço com um? - perguntou exibindo uma ironia que me passara despercebida até então.

- As aparências, como as ideologias, já não querem dizer mais nada nos dias de hoje - afirmei.

Ele riu.

- Na verdade meu adultério não é tão diferente assim. Eu tenho uma amante, é isso.

- Diria que é o adultério mais comum do mundo.

- A diferença é  que não vim até aqui para pedir que o senhor siga minha amante.

É claro que não. Geralmente quando arrumam uma amante, começam a desconfiar de suas próprias esposas. Mas deixei que chegasse até lá em seu próprio ritmo, que era bastante lento, por sinal.

- Eu queria que o senhor seguisse o marido de minha amante - disse, olhando-me fixamente, medindo minha reação.

Não deixei que flagrasse minha surpresa:

- O senhor se importa de me dizer o motivo?

- Eu acho que ele sabe de tudo.

- E o senhor está com medo de alguma represália. Deseja proteção, na verdade.

- Não, não. Eu tenho como me proteger. Tenho seguranças. Sabe como é, infelizmente, no Brasil a gente precisa proteger o que tem, e eu sou um homem de posses, um empresário bem-sucedido, graças a Deus, nesse ramo complicado das sondas submarinas...

- Sondas submarinas?

- É. Exploração no fundo do mar. Isso exige máquinas muito específicas. Eu as importo.

Difícil imaginar um importador de sondas submarinas sofrendo de problemas corriqueiros, como adultérios e dores de dente. Viver é surpreender-se a cada esquina.

- Deixando as sondas de lado - eu disse - o que exatamente o senhor quer que eu faça?

- Descubra se o marido da minha amante realmente sabe do nosso caso. Um segurança não teria a sutileza necessária para um trabalho desses. É por isso que procurei um detetive.

Agradeci em nome da classe. Se não se lembrassem da gente nem nos adultérios, fecharíamos as portas.

- De uns tempos para cá, comecei a desconfiar de que ele me segue, ou me observa. Meus seguranças não perceberam nada de anormal, mas sinto que tem alguém me espreitando. A primeira coisa que fiz foi perguntar para a Isabel, este é o nome da minha amante, Isabel, se o marido desconfiava de alguma coisa. Ela disse "não, de jeito nenhum. O Gilberto não desconfia de nada. Ele não liga para mim. Ele nem sequer olha para mim, não se preocupe". Mas eu estou preocupado. É difícil prever o que um homem traído pode fazer. Então eu ando dando umas desculpas e tenho evitado encontrar Isabel. Mas essa situação não pode continuar assim. Tenho saudades dela, sabe…

Eu sabia.

E sabia também como é  complicado descobrir quando um homem enganado pela mulher tem ou não  consciência do fato. Há certas evidências que preferimos esconder de nós mesmos. Mas não se pode rejeitar trabalho, não hoje em dia, com as taxas de desemprego crescendo na mesma proporção com que diminuem as cifras da minha conta bancária.

- O.K. - eu disse. - Vamos ver o que eu posso fazer.

Aquela não estava sendo uma temporada muito proveitosa. O verão no Rio de Janeiro costuma ser péssimo para investigadores privados e taxistas. Todo mundo sai de férias e parece se esquecer daqueles probleminhas que compõe o trivial variado dos detetives: adultérios, traições, desconfianças, parentes desaparecidos e outras banalidades. Além disso, mais uma vez o Vasco não conseguira chegar às finais do Campeonato Carioca.

A primeira coisa que fiz assim que Wagner Esmeralda (este era o nome completo de meu cliente) saiu do escritório foi chamar Rita pelo interfone. Quando entrou na sala, reparei que havia algo de diferente em seu rosto.

- Eu não sabia que você usava óculos - eu disse.

- Eu não usava. Hoje é o primeiro dia.

- Você fica bem de óculos - afirmei, num galanteio compulsivo e, imagino, bastante previsível para aqueles que conhecem um pouco da minha personalidade. Rita não se dignou a comentá-lo. Pedi que ligasse para Péricles, um velho detetive, ex-tira, imbatível na arte de perseguir sem ser notado.

- Péricles? É o Bellini. Estou precisando que você me faça uma campana. Adultério, o amante acha que está sendo seguido pelo marido. Eu colo no amante, você no marido.

- Eu não colo em marido porra nenhuma. Passo aí em 10 minutos.

Enquanto esperava por Péricles coloquei Muddy Waters no toca-discos. "I’m your Hoochie-Coochie man…"

No dia seguinte.

Gilberto Damato Sobrinho (este era o nome completo do marido da amante do meu cliente) advogava numa casa de dois andares na Rua Ubaldino do Amaral. Ao lado da porta, uma placa de metal, discreta, anunciava:

"Gilberto Damato Sobrinho – Advocacia"

Advocacia, simplesmente. Um pouco genérico demais para o meu gosto, se meu gosto valesse alguma coisa, eu não estaria ali, naquele calor insuportável, bisbilhotando a vida alheia para levantar alguns trocados.

Eram 10 horas da manhã. Instalei-me num bar do outro lado da rua, pedi um café e fiquei olhando o casarão.

Às 11h15, Gilberto Damato chegou, dirigindo uma Mercedes prateada. Estacionou e entrou no escritório. Era um homem já um tanto adiposo, aproximando-se dos 50. Calvo, bem vestido, usava óculos escuros e um minúsculo rabo-de-cavalo. Pode-se medir o estado de uma civilização pela maneira com que seus advogados ajeitam os cabelos. Tenho visto coisas inacreditáveis por aí.

Deixei o bar e fiquei andando pra lá e pra cá, numa das rotinas mais excitantes do meu ofício: a arte de esperar.

Nada de estranho aconteceu.

Às 4 da tarde, Gilberto saiu do escritório e entrou na Mercedes. Fui atrás. Segui-o até sua casa, no Recreio.

Ele ainda estava lá à meia-noite, quando decidi terminar o expediente e voltar para o meu apartamento.

Chegando, liguei para Péricles, atrás das novas.

- Estou com o palpite de que seu cliente é um paranoico, mas vamos dar mais um tempinho para ter certeza - disse ele.

Não dei tempo nenhum, caí na cama e dormi sem escovar os dentes.

No segundo dia.

Uma das boas coisas da profissão é que nem sempre você precisa esperar sete dias, como Deus, para dar o trabalho por encerrado.

Encontrava-me no mesmo bar do dia anterior, explicando ao balconista que eu trabalhava para uma imobiliária com interesses na região, quando Gilberto chegou, às 11h32. O que mudou em relação ao dia anterior, além do fato de ele ter se atrasado 17 minutos, foi que, ao meio-dia e meia, uma ruiva exuberante estacionou seu Alfa-Romeo ao lado da Mercedes de Gilberto. Ela não saiu do carro. Ficou ali, falando num telefone celular, balançando a cabeça de um jeito que só mulheres sádicas balançam.

Minhas análises do comportamento feminino foram interrompidas pela chegada de Gilberto. Ele saiu apressado do escritório, olhando para os lados, e entrou no Alfa-Romeo da ruiva. Corri para o meu carro, que não era nenhum Mercedes ou Alfa-Romeo, e segui atrás.

Rodei um bom tempo na cola dos dois. Quando percebi que estavam entrando num motel, liguei do meu celular para Rita.

- Pega um táxi e vem pra cá. Agora.

- Dá pra dizer o endereço?

- Motel Fênix - Dei o endereço. - Pergunte por mim na recepção. - Desliguei.

O Alfa-Romeo da ruiva parou na recepção, eu diminuí a marcha para que eles não me notassem. Esperei que entrassem e acelerei até a recepção.

- Um quarto, por favor.

A recepcionista olhou para dentro do carro, estranhando minha solidão.

- Minha namorada já está chegando. Não queremos entrar juntos…

- Tudo bem - disse. Seca. - Sua identidade por favor.

Botei uma nota de cinqüenta junto à identidade e passei para ela.

- Como é o seu nome? - perguntei.

- Sandra.

- Sandra, sabe aquele casal que acabou de entrar? Você pode me conseguir um quarto ao lado deles? Não é por nada - dei um sorrisinho amarelo - é que eu e minha namorada gostamos de saber que tem gente…ao nosso lado.

- Tudo bem - repetiu, ainda seca, dando-me a chave da suíte 22.

Estacionei o carro na garagem privativa da suíte e subi até o quarto.

Colei a orelha esquerda na parede e procurei descobrir, com dificuldade, de que lado estavam Gilberto Damato e a ruiva. O walkman e a idade estavam devastando minha audição, é verdade, mas o motel tinha paredes finas.

Na suíte 21, silêncio total.

Na 23, risadinhas.

É chato ter de admitir, mas eles se divertiam bastante. Não pude evitar uma ereção quando a ruiva sussurrou: "Vem Giba! Me fode com força porque eu vou gozar! Ahhh…"

Confesso que, ao imaginar visualmente aquela trepada que eu apenas ouvia, eliminei de minha mente a figura grotesca de Gilberto, Giba para os íntimos, e seu ridículo rabo-de-cavalo. Fiquei com a imagem da ruiva, mas foi difícil não pensar em Gilberto quando ela suplicou: "Agora deixa eu chupar o teu pau. Por favor, enfia essa Torre de Pisa inteirinha na minha boca, até eu engasgar! Ahhh…"

Inacreditável. Além de usar rabo-de-cavalo, o homem tinha o pau torto. Não se fazem mais advogados como antigamente.

Rita chegou, eles já estavam repousando. Meu pênis também. Melhor assim; teria sido constrangedor recebê-la com aquela ereção literalmente desmesurada.

Enquanto eu continuava com o ouvido grudado na parede, atento ao sono dos dois amantes, reparei que Rita olhava insistentemente para a televisão desligada.

- O.K. - eu disse. - Se deixar sem som, pode ligar.

Ela botou os óculos e entregou-se à exuberância dos vídeos pornôs com a mesma volúpia com que uma criança se entregaria ao Xou da Xuxa.

Meia hora depois, notei que Gilberto e a ruiva se preparavam para sair. Alertei Rita, já vesga de tanto acompanhar os malabarismos sexuais na TV, e saímos rapidamente do motel.

Com Rita ao volante, estacionamos a alguns metros do portão de saída. Eu preparei a teleobjetiva e ficamos esperando.

O Alfa-Romeo com Gilberto e a ruiva despontou do portão, Rita deu a partida, eu comecei a fotografar. Rita manteve nosso carro a uma distância cautelosa, sem perdê-los de vista. Fotografei-os por todo o trajeto, até o escritório de Gilberto. Chegando lá, ele desceu do carro e despediu-se da ruiva.

Eu disse para Rita: "Desce. Fica de olho no Gilberto. Eu vou atrás da ruiva".
Rita desceu, eu passei para o banco do motorista e acelerei.

A ruiva subiu a Ubaldino do Amaral até a Rua do Senado, e depois dobrou à direita na Sete de Setembro. Largou o Alfa-Romeo num estacionamento na esquina com a Rua Uruguaiana. Fiz o mesmo.

Ela ficou andando pra lá e pra cá, olhando as vitrines das lojas de roupa. Eu me sentei num bar na esquina oposta à do estacionamento, pedi um chope e fiquei observando o doce dilema de uma ruiva fatal: um vestido vermelho ou um vestido azul?

O azul, eu diria, se minha opinião fosse requisitada. O vermelho reforçaria demais o calor que ela já naturalmente transmitia.

Minha opinião não foi requisitada, a ruiva simplesmente abandonou a vitrine e seguiu caminhando até um antiquário, dois quarteirões adiante.

Paguei o chope; fui atrás.

No amplo galpão repleto de peças e móveis antigos, uma senhora de marejantes olhos verdes me recepcionou:

- Deseja alguma coisa, cavalheiro?

Antes de responder, dei uma olhada geral. A ruiva havia sumido.

- Só olhando…

- Fique à vontade.

Ah, o suave labirinto dos ricos, pensei, enquanto me embrenhava por entre móveis e objetos.

Me toquei de repente de que estava sozinho. A velha senhora de olhos verdes também desaparecera. Música clássica tocava bem baixinho, vinda do teto. O lugar todo tinha um cheiro forte de madeira sólida, antiga. Passei por mesas, cristaleiras, estantes e relógios de pêndulo. De repente, senti um cheiro diferente. O cheiro dela, ou talvez, do sexo dela. Teria os pentelhos ruivos também?

É provável que minha mente estivesse me pregando uma peça. Mas eu sentia, juro que sentia, um cheiro de sexo no ar. Talvez o fato de ter presenciado, auditivamente que fosse, a transa da ruiva com Gilberto, me predispusesse a perceber estranhas fragrâncias pelo ambiente.

Ela estava sentada atrás de uma estátua de mármore, olhando para uma caixinha de música. Suas coxas, lindas, depiladas, coxas macias de madame inatingível, estavam à mostra. Nossos olhares se cruzaram por um instante. Perdi a fala, tentei esboçar um "boa tarde", ela me ignorou, os olhos voltados novamente para a caixinha de música.

Sim, ela era terrivelmente sádica, e eu, o mais subserviente de seus vassalos.

Saí dali andando rápido, o coração descompassado, me perguntando que besteira foi aquela. Quando você segue alguém, só deve se preocupar com uma coisa: não deixar que a pessoa que você segue perceba que está sendo seguida.

Eu havia deixado que ela percebesse bem mais do que isso.

À noite, liguei para Péricles. Ele me confortou:

- O seu cliente está paranoico, Bellini. Além de mim, não tem ninguém atrás dele.

Telefonei em seguida para Rita

- O Gilberto ficou no escritório até o fim da tarde, e de lá foi para casa. Está lá até agora.

O caso parecia bastante claro. Liguei para Wagner Esmeralda, o meu cliente:

- Alguma novidade, senhor Bellini?

- Boas novidades. Acho que o senhor não tem com que e preocupar. O Gilberto Damato também está dando suas escapadinhas. Uma ruiva deslumbrante; passaram algumas horas num motel. Pelo aspecto dela, eu posso deduzir que o Gilberto não está muito preocupado com a esposa. Eu, no lugar dele, não estaria.

Wagner Esmeralda riu.

- Uma ruiva? - perguntou.

Concordei.

- Talvez o senhor tenha razão - disse - e eu esteja fantasiando as coisas, quem sabe? Olha, amanhã  eu passo no seu escritório para acertarmos um pagamento. Que tal às 6 da tarde, depois do meu expediente?

- Perfeito para mim - eu disse. - Até lá, as fotos e o relatório estarão prontos.

- Eu tenho uma surpresa para você - acrescentou, enigmático, dispensando pela primeira vez o tratamento de "senhor".

Agradeci, adoro surpresas. Desejamo-nos boa-noite e desligamos.

Fui dormir, a imagem da ruiva me perseguiu. Estava excitado, tentei me masturbar, mas ela merecia mais do que um simples gozo solitário.

Ela merecia muito mais.

Desisti da punheta. Acabei pegando no sono e não tenho certeza se sonhei com ela.

No dia seguinte, às 18 horas, Rita entrou em minha sala.

- O Esmeralda chegou? - perguntei.

- Não. Mas entregaram isso para você.

Ela trazia um envelope grande, cor de abóbora, nas mãos.

Abri o envelope, havia um cheque em meu nome, assinado por Wagner Esmeralda, com uma quantia bem maior do que os honorários que havíamos combinado previamente. Maravilha. Não tenho problemas em aceitar a generosidade de um cliente.

Além do cheque, havia um outro volume dentro do envelope, um jornal publicado na tarde daquele mesmo dia.

A manchete: "Empresário mata a esposa com dois tiros no rosto e se suicida em seguida, com um tiro na têmpora."

Logo abaixo, uma foto do casal, ainda em vida. Identifiquei Wagner Esmeralda. Identifiquei também sua esposa e levei um susto. A foto era em preto e branco, mas eu não precisaria de cor nenhuma para reconhecer os cabelos avermelhados daquela beldade.

Eu já devia saber, não existem adultérios diferentes.