terça-feira, 3 de novembro de 2015

Minha Vida Injusta - Parte 13: 3 de Novembro de 2010



“O romance ‘Traição em Família’, primeiro livro do escritor de contos Henrique Soares, não consegue alcançar o nível de profundidade descrita em comparação aos seus primeiros contos, parece que toda a trama é apenas uma desculpa para mostrar pornografia em suas páginas, usando como referências obras como ‘Os Sete Gatinhos’ e ‘Bonitinha, mas Ordinária’ de Nelson Rodrigues, o que é uma pena pois Henrique Soares não tem o nível de genialidade que Nelson Rodrigues tinha. ‘Traição em Família’ é um livro superficial e sem nenhum grande acontecimento no decorrer de suas páginas. Finalmente parece ser fato que Henrique Soares foi bom apenas no seu primeiro mês de carreira quando ele escrevia apenas contos, onde até mesmo estes estão sendo extremamente fracos atualmente...”

Era mais uma crítica que eu estava lendo sobre o meu livro, o primeiro que escrevi, mais uma crítica ruim, parece que ninguém está gostando de meu livro, e pelo jeito, nem dos meus contos mais, meu chefe me chamou ontem e me disse que irá cancelar a minha coluna no jornal porque eu estava recebendo muitas críticas ruins, reclamei pois os meus contos salvaram aquele jornal, foi um sucesso no início, mas confesso que é difícil manter o alto nível sempre, têm dias em que não tenho criatividade para escrever. Achei que eu conseguiria voltar ao topo no mês passado com a publicação do meu livro, mas parece que não, além do fracasso de crítica, também está sendo um fracasso de vendas.

Li esta crítica em uma revista enquanto eu estava esperando o atendimento do médico para saber quais foram os resultados dos meus exames que fiz há uma semana atrás. Nesses últimos meses eu não estou me sentindo muito bem, talvez isso tenha influenciado até mesmo na qualidade do meu livro. Começou com uma tosse simples, mas depois de tomar xarope por um mês, nada melhorou, muito pelo contrário, além de conseguir uma tosse mais forte, começou uma febre alta e ultimamente senti muitas dores na altura do pulmão, apesar disso tudo, evitava ir ao médico, cheguei a ir uma vez mas ele nem me examinou direito e me receitou outro xarope, o que obviamente não funcionou. Nas últimas semanas eu comecei a escarrar sangue junto com a tosse, e um dia, quando Luana chegou em casa e foi me ver no quarto, me encontrou desmaiado, nisso ela me trouxe neste médico particular, pagou um bom dinheiro e exigiu que ele me examinasse direito.

Acordei cedo e vim para cá pra finalmente saber o que eu tenho, estava demorando muito para o médico me chamar, isso é o que eu mais odeio em hospitais, ter que esperar. Nesse meio tempo fui ao banheiro e escarrei muito sangue, as minhas dores já estavam insuportáveis, tomei um analgésico e voltei para a sala de espera, esperei mais um pouco, até que finalmente o médico me chamou, entrei em sua sala, ele olhou os meus papéis, pela expressão em seu rosto ele parecia bem preocupado, comecei a me preocupar também. Ele fez algumas anotações, cruzou os seus dedos, olhou diretamente em meus olhos e começou a falar, fiquei apreensivo e apenas ouvindo tudo, sem reação.

- Vamos lá, Henrique... Já devo lhe dizer que as notícias não são boas, pelo raio X já havia acusado a doença, mas ainda poderiam existir dúvidas, sorte que pedi também a tomografia. Pelos sintomas achei que seria tuberculose, e nesse caso, seria melhor que fosse mesmo...

- Doutor, dá pra ir direto ao ponto logo? – Eu não estava mais me aguentando de tanta ansiedade.

- Henrique, você fuma, certo? – Ele perguntou.

- Sim.

- Quantos cigarros por dia?

- Muitos, atualmente em média de quatro a seis maços.

- Há quanto tempo você fuma?

- Não sei direito, desde os meus quinze anos, talvez... Mas e daí, doutor, quem liga?

- Bem, Henrique, o seu raio X acusou um tumor grande em seu pulmão direito. E a tomografia só confirmou... Você está com câncer no pulmão, e um dos grandes, esse tipo de câncer é inoperável, podemos ter resultados positivos após a quimioterapia, mas infelizmente um paciente com um caso desses não costuma sobreviver mais de cinco anos... Sinto muito... Recomendo você a conversar com a sua família...

Eu não consegui ter nenhum tipo de reação após ele ter me contado isso, simplesmente nada, não consegui responder nada para ele, apenas arregalei os meus olhos. Ele me entregou os resultados do exame, eu peguei e saí do consultório sem dizer uma única palavra.

Cheguei em casa, cumprimentei a minha mãe e a Luana, não tive coragem de falar nada para elas naquele momento. O pequeno Jimmy estava na sala jogando videogame.

- Então? O que o médico disse? – Luana me perguntou

- Nada... Tô legal... – Eu não tive coragem de contar. Fui falar com o meu filho.

- E aí, Jimmy, como foi na escola hoje?

- Foi ótimo, pai. Tirei 10 em matemática e já posso falar que eu passei direto. – O pequeno Jimmy era uma criança realmente muito inteligente.

- Nossa! Que bom, meu filho. Eu vou no quarto descansar agora, papai não está se sentindo muito bem.

- Tudo bem, pai.

Fui para o quarto e comecei a pensar que eu não iria acompanhar o crescimento de meu filho, que eu iria morrer e deixar uma família que me ama, e tudo isso por minha culpa mesmo, eu que fumava todos aqueles cigarros, e porque eu queria e gostava, desde o primeiro cigarro eu não sabia, mas ali eu já estava selando a minha própria morte, eu estava me matando aos poucos... É tudo culpa minha, e agora não irei ver o meu filho crescer...

Pensando nisso comecei a chorar muito, rasguei um dos exames, que agora pra mim é só uma papelada que não importa mais nada, fiz uma bola de papel com o exame rasgado, coloquei em minha boca e comecei a mastigar, enquanto estava sentado no chão, e chorando. Luana entrou no quarto.

- Henrique, o que é isso? O que houve? Conta pra mim. – Ela estava preocupada.

Percebi que o papel que eu tinha rasgado era apenas o resultado da tomografia, o laudo do médico ainda estava ali, intacto, entreguei o laudo para a Luana. Enquanto ela lia só consegui falar uma palavra:

- Câncer...

Luana começou a chorar enquanto lia o laudo, correu e minha direção e me abraçou.

- A gente vai dar um jeito... A gente vai dar um jeito... Começaremos o tratamento... Você não vai morrer... Você não vai morrer... Vamos superar isso juntos... – Luana disse num tom de desespero.

Nos tranquilizamos e esperamos o pequeno Jimmy dormir para contarmos isso pra minha mãe, eu e a Luana decidimos que o Jimmy não deveria saber disso, pelo menos não por enquanto. Depois que minha mãe soube da notícia, ela chorou e me abraçou, como minha mãe já está com uma certa idade, ela passou mal por causa da sua pressão que subiu, mas logo melhorou e nos acalmamos.

Decidimos começar o tratamento logo, amanhã mesmo iremos marcar uma data para a minha primeira sessão de quimioterapia.

Pela primeira vez em minha vida, eu realmente estou com medo. Eu tinha tantos planos para o meu futuro e agora... Nada... Absolutamente nada...

Henrique Soares, 3 de Novembro de 2010.