sexta-feira, 24 de abril de 2015

Minha Vida Injusta - Parte 6: 24 de Abril de 1991

Hoje não aconteceu quase nada de muita relevância, estou escrevendo apenas para não perder o costume. Bem, o meu dia hoje foi normal, fui para a reabilitação, que agora é basicamente uma reunião de ex-viciados em maconha, hoje faz um ano que comecei a reabilitação, tomei essa decisão depois de perceber que tudo aquilo que aconteceu no ano passado, toda aquela minha briga com o meu pai e o fato dele ter espancado a minha mãe foi tudo culpa minha, tudo por causa do meu vicio em maconha. A reabilitação foi difícil no começo, mas já estou há quatro meses sem fumar maconha, em compensação eu comecei a fumar muito cigarro, atualmente fumo até três maços por dia, e mesmo assim não ta sendo o suficiente.

Rafaela também está na reabilitação, mas hoje ela não foi, a morte do Jorge no ano passado foi uma porrada muito grande para ela, eles eram amigos de infância, então chegamos juntos a conclusão de que largaríamos qualquer tipo de droga. Sem Rafaela lá hoje eu conversei por mais tempo com o Felipe e a Luana, eles namoram e estão juntos há sete anos, eles começaram a frequentar as reuniões faz um pouco mais de dois meses, ainda não os considero meus amigos, mas são pessoas bem legais.

Saindo da reabilitação fui direto para a sapataria, já estava em meu horário de trabalho, eu estou fazendo hora extra quase diariamente para conseguir comprar os móveis da minha nova casa. Estou morando com a Rafaela, consegui construir uma casinha nos fundos da casa de sua mãe, porém só temos um sofá e uma cama por enquanto.

Quando saio do trabalho costumo ir visitar a minha mãe, ela estava com uma aparência muito boa hoje. Meu pai está preso, ele pegou cinco anos de prisão, não por ter batido na minha mãe no ano passado, mas sim por ter agredido e ameaçado de morte um filho de um policial enquanto estava bêbado, mesmo depois disso ter acontecido decidi não voltar para casa, queria construir uma família com a Rafaela.

- Meu filho, eu já estou ficando velha, queria ter feito um monte de coisas em minha vida, mas acho que não dá mais. – Minha mãe começou a falar num tom de desabafo. – Espero que você não fique a vida inteira trabalhando naquela sapataria.

- E não irei, mãe, até que o salário é legal mas eu irei fazer uma faculdade para me tornar escritor. E não diga que você está velha, você está ótima.

- Filho, tomara mesmo que você consiga alcançar os seus objetivos.

Saí da casa da minha mãe quando já estava bem tarde, o relógio já marcava quase 22 horas, mas mesmo assim resolvi passar na casa do Jimmy, já faz um tempo que não o via, pois ele tinha começado a fazer faculdade de história e só estava com tempo para estudar, cheguei lá e o encontrei, ele estava bem abatido, parecia até que estava doente.

- Cara, você está bem? – Perguntei, eu estava realmente preocupado.

- Estou ótimo. Pode entrar, to terminando de fazer o trabalho da facul aqui no quarto. – O tom de voz do Jimmy estava bem calmo, nem parecia que o trabalho da faculdade o estressava.

Fiquei esperando-o terminar o trabalho, apenas o observava, o seu quarto estava uma bagunça, o que é estranho pois o Jimmy sempre foi um cara limpo e bem organizado.

- Aaaaahhh, to sem idéias para terminar essa merda de trabalho, preciso ter idéias, desculpa Henrique, sei que você ta na reabilitação mas preciso de uma viagem.

- Tudo bem.

Eu o respondi achando que ele iria acender um baseado, mas quando vi o que ele tirou da mochila fiquei assustado. Era crack, Jimmy estava usando crack.

- Cara, você ta maluco? Isso mata! – Eu disse num tom de voz alto para ele poder me ouvir enquanto estava na onda.

- Que nada, tem uma galera lá da faculdade que usa isso já faz um tempinho, eu to bem, consigo controlar as minhas doses.

- Você já se esqueceu do que aconteceu com o Jorge?

- O Jorge era fraco... Eu sou forte.

- Você só pode ter perdido o juízo.

- Por quê? Você vem até a minha casa e quer controlar a minha vida?! Caí fora, vai embora. – Jimmy estava alterado, ele parecia estar bem nervoso.

Resolvi ir embora e tentar falar com ele num outro dia, quando ele estiver consciente. Voltei para casa, Rafaela estava me esperando, não contei sobre isso pra ela, por algum motivo resolvi guardar segredo, ela dormiu, eu não consegui dormir, peguei este velho diário dos Beatles e comecei a escrever, mas não estou conseguindo parar de pensar no que o Jimmy está fazendo com a vida dele, preciso fazê-lo parar de usar crack, ele vai acabar se matando.


Henrique Soares, 24 de Abril de 1991.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

A Balsa de Medusa

Na história da humanidade encontramos acontecimentos que nos levam a profundas reflexões.

Em 1816 uma fragata francesa encalhou próximo a costa de Marrocos. Não havia número o suficiente de botes salva-vidas. Os restos do navio foram a única balsa que manteve 149 pessoas vivas. A tempestade os arrastou para o mar aberto por mais de 27 dias sem rumo.

A dramática experiência dos sobreviventes impressionou um artista. Gericault realizou um estudo substancial dos detalhes para produzir esta pintura. Ele entrevistou os sobreviventes, os enfermos e inclusive viu os mortos. Horrorizado, reproduziu essa íntima realidade humana nesta situação.

Clique na imagem para vê-la em tamanho maior

“A Balsa de Medusa” de Theodore Gericault é a pintura de um acontecimento que comoveu a França. O naufrágio do navio “A Medusa” (2 de julho de 1816) trouxe repercussões que tocou no mais profundo da alma humana. Nela, vemos as diferentes atitudes humanas que se manifestam nos momentos cruciais da vida. Leva-nos a pensar em qual lugar nós estaríamos nesta pintura. Quantas vezes atravessamos situações difíceis e de que forma nós a enfrentamos.


“Nos deixamos derrotar e entregamos todas as nossas forças?”



“Não acreditamos que tenha solução?”



  
“Duvidamos de tudo e de todos?”


  
“Somos os que mantemos a esperança acima de tudo?”


  
“Não deixamos de nos esforçar para chegarmos à vitória?”


  
Se você observar com atenção poderá ver que não há nenhum navio para resgatá-los. No entanto, há um grupo decidido a usar suas últimas forças para salvar toda a tripulação. A balsa é como o Planeta Terra, os tripulantes são a humanidade e as atitudes que cada um toma diante da vida.

“Esperança é decidir pela vitória em cada circunstância que a vida nos coloca.”


(Texto e imagens recebidos através de um slideshow por email, sem nome do autor original)

domingo, 12 de abril de 2015

Minha Vida Injusta - Parte 5: 12 de Abril de 1990

- Cara, eu tenho que passar para a faculdade logo, já to com 20 anos, to velho. – Eu disse, realmente estava preocupado.

- Não precisa, cara. Você quer ser escritor, certo? Comece a escrever então. – Rafaela respondeu, ela não estava na faculdade e acho que nem pretendia fazer.

- Seria mais fácil se eu tivesse um diploma de letras.

- Acho que daria tudo na mesma.

Já estamos namorando há dois anos, gosto realmente dela. Sabe, às vezes me pergunto se irei ficar com ela para sempre, eu realmente gostaria que isso acontecesse. Estou trabalhando numa sapataria, é uma merda, mas pelo menos ganho dinheiro o suficiente pra conseguir comprar baseado. Encontrei com a Rafaela no fim do expediente, saímos, tomamos uma cerveja e logo depois a deixei em casa.

Quando cheguei em casa a situação estava tensa, minha mãe estava chorando, meu pai voltara a bater nela, o seu rosto estava completamente roxo e inchado, nunca a tinha visto desse jeito.

- Cadê ele? – Perguntei, eu estava com raiva. Minha mãe nem precisou responder, olhei para a cozinha e lá estava ele, extremamente bêbado. Quando me viu, começou a gritar.

- SEU FILHO DA PUTA, ACHOU QUE EU NÃO IRIA DESCOBRIR QUE VOCÊ FUMA MACONHA? – Droga, ele encontrou o meu estoque que eu escondia embaixo do colchão, enquanto meu pai gritava, minha mãe chorava mais ainda. Na hora eu não tive o que pensar, apenas o respondi.

- Pelo menos não sou um vagabundo que passa o dia inteiro enchendo a cara. – Após isso, meu pai respirou fundo, e quando percebi ele me deu um soco, bem no meio da cara, o impacto me fez cair no chão. Quando caí, procurei pelos meus óculos, já era, quebraram.

Ainda tonto por causa do soco, o vi correndo para o meu quarto, eu queria revidar mas não consegui, comecei a ouvir barulhos de coisas se quebrando, com dificuldade, levantei do chão.

Quando cheguei no quarto e vi o que tinha acontecido lá, comecei a chorar, em uma mistura de raiva com tristeza. O meu toca discos estava estraçalhado no chão, junto com meus discos do David Bowie, Legião Urbana e Barão Vermelho, todos quebrados em duas ou mais partes. Meu pai começou a pegar os meus livros e a rasgá-los, primeiro a minha coleção de “A Vida Como Ela É...”, depois uma edição do roteiro de "Sete Gatinhos", que foi extremamente difícil de eu achar para comprar.

- ISSO TUDO É CULPA SUA E DA PUTA DA SUA MÃE, SE ELA NÃO DEIXASSE VOCÊ TER IDO PRA LAPA, VOCÊ NÃO FUMARIA MACONHA! – Ele gritava enquanto rasgava as páginas dos meus livros e quebrava os meus discos.

Até que ele abriu o meu armário e pegou o meu diário dos Beatles, mas antes dele começar a rasgar, eu o empurrei bem forte, ele soltou o diário, não pensei duas vezes, apenas peguei o diário e saí de casa, meu pai ainda estava gritando algo do tipo “volta aqui”, mas não prestei atenção, só queria sair dali, não queria voltar pra casa nunca mais, apenas sair daquele jeito mesmo, só com a roupa do corpo e com este diário.

Fui para a casa da Rafaela, ela morava com a mãe, mas eu já a conhecia, ela me achava um anjo. Rafaela estava chorando quando abriu o portão.

- O que houve? – Perguntei pra ela, foi estranho pois achei que seria ela que me perguntaria isso.

- Foi o Jorge... O encontraram morto lá na casa dele.

- Morto, mas... Como? – Eu não esperava essa notícia, é incrível como a vida pode fazer o seu momento ruim piorar mais ainda, até mesmo quando você acha que não dá pra piorar.

- Disseram que foi overdose... Ele começou a usar uma droga nova há alguns meses atrás, acho que o nome é Crack, nunca ouvi falar, mas pelo que me contaram isso causa uma dependência de um jeito grave e muito rápido. 

Crack, é a primeira vez que ouço falar sobre essa droga, não sei como ela funciona, e nem quero saber, não quero usar isso nunca, nem nenhum outro tipo de droga, não depois de tudo o que aconteceu hoje.

E foi ali que percebi que estou vivendo um dos piores dias da minha vida, queria que terminasse logo. Estou passando a noite aqui na casa da Rafaela, ela tomou um calmante e dormiu, eu não consigo dormir, nem mesmo com o calmante, resolvi escrever aqui, mesmo tendo dificuldade para enxergar, não sei por que estou escrevendo aqui sobre esse meu dia, porque sinceramente foi um dia para ser esquecido.


Henrique Soares, 12 de Abril de 1990.