terça-feira, 25 de agosto de 2015

Minha Vida Injusta - Parte 10: 25 de Agosto de 2000


"Quando tudo está perdido, sempre existe um caminho. Quando tudo está perdido, sempre existe uma luz" - Renato Russo

Pensei bem se eu escreveria alguma coisa sobre o que aconteceu hoje, estou abalado demais para descrever o que aconteceu. Neste momento minhas lágrimas estão caindo nestas folhas, enquanto continuo usando esta camisa manchada de sangue. Tentarei escrever sobre o que aconteceu porque preciso preencher minha mente, neste momento são 4 horas da manhã e não irei conseguir dormir de jeito nenhum, não depois do que aconteceu. É incrível como um dia comum e normal pode se tornar o pior dia da sua vida em questão de segundos.

Como hoje é sexta-feira resolvi sair com a Luana, já que não conseguimos fazer muita coisa no nosso aniversário de namoro há duas semanas atrás por causa de nossos empregos, resolvi compensar hoje, telefonei para ela.

- Hoje eu estava a fim de ir naquela boate nova em Madureira. – Ela disse pelo telefone.

- Ok, tudo bem. – Respondi e desligamos o telefone.

Quando cheguei do trabalho, apenas passei em casa para trocar de roupa.

- Vai sair com a Luana? – Minha mãe perguntou.

- Sim, mãe.

- Eu gosto da Luana, ela é bem bonita e simpática. E você está bem elegante. – Ela disse após me ver usando uma camisa polo que ela mesma me deu.

- Obrigado... Estou indo, mãe, voltarei tarde, não me espere acordada.

- Ok, filho. Tchau.

Busquei a Luana em sua casa e de lá fomos até a boate. O lugar é bem legal, é escuro, mas pelo menos é espaçoso. Chegando lá, fomos até o bar da boate, pedimos Whisky e bebemos enquanto conversávamos. Eu estava bem feliz naquele momento, só a companhia da Luana me deixava feliz, até que alguém se aproximou e me cumprimentou.

- Cara, não esperava te encontrar aqui! – Era o Jimmy, ele falou quase gritando por causa do som alto da música. Ele também cumprimentou a Luana.

- E aí, cara? Senta aí. Quer uma bebida? – Eu perguntei, mas quando olhei para seu rosto vi que ele já parecia bem bêbado.

- Não, tá tudo bem, um colega meu vai trazer algo pra mim.

- E o emprego, já se acostumou a dar aulas? – Luana perguntou em tom de brincadeira.

- Sim, mas é difícil porque sempre tem algum aluno que não quer saber de nada... Ser professor de História é difícil.

- A culpa foi sua, foi você que escolheu isso pra sua vida. – Luana sempre foi brincalhona.

- Eu sei. – Jimmy riu.

Nesse momento alguém se aproximou de Jimmy e o entregou algo enrolado em um saco plástico, no primeiro momento não consegui ver o que era. O homem que entregou isso para o Jimmy era bem estranho, após isso o homem disse algo no ouvido do Jimmy e foi embora.

- Já volto, gente. – Jimmy disse e foi até o banheiro, nesse momento eu nem precisei ver o que havia dentro do saco para entender. Jimmy voltara a usar crack.

Não acreditei nisso, precisava ver para crer, disse para a Luana que iria ao banheiro. Chegando lá, me deparei com o Jimmy sentado no vaso e segurando uma enorme predra de crack, se preparando para usá-la.

- Você tá maluco, cara? Se esqueceu do que essa droga fez contigo antes? Isso quase te matou! – Eu disse, enfurecido.

- Agora eu consigo me controlar... Me deixa... Henrique... Só... Me deixa. – Ele já estava bem drogado.

- Vamos embora, eu chamo um táxi.

Levantei o Jimmy e o conduzi até a saída, mandei ele esperar ali na porta e passei na Luana.

- Amor, espera aqui, o Jimmy está muito bêbado, vou lá fora chamar um táxi para levá-lo em casa.

- Tudo bem, eu espero aqui.

Jimmy já estava na rua, ele não me esperou. Quando saí o vi conversando com dois caras estranhos, me aproximei devagar.

- VOCÊ DISSE QUE IRIA ME PAGAR HOJE, SEU MERDINHA! VOCÊ JÁ TÁ ME DEVENDO UM MÊS! – Um dos caras gritou para o Jimmy.

Logo reconheci um dos caras, era o mesmo que havia entregado o crack para o Jimmy dentro da boate, continuei me aproximando devagar, quando vi esse cara puxar uma pistola de sua cintura e disparar contra o peito de Jimmy à queima roupa.

Os caras correram depois do disparo, não vi para onde, naquele momento só me preocupei com o Jimmy. O barulho do tiro foi tão alto que as pessoas de dentro da boate ouviram, mesmo com a música alta. A maioria das pessoas saíram da boate, incluindo a Luana.

Jimmy estava sangrando muito, o abracei, seu sangue acabou manchando minha camisa. Ele estava pálido e sem reação, quando o encostei percebi que ele estava começando a ficar gelado.

- ALGUÉM LIGA PARA UMA AMBULÂNCIA, RÁPIDO! – Eu gritei, olhei para a Luana e a vi correndo na direção de um orelhão ali perto, antes de vê-la chegar ao orelhão, percebi que ela estava chorando.

Os olhos de Jimmy estavam fixos em meu rosto, sem nenhum tipo de expressão, eu comecei a me desesperar ainda mais.

- Calma, cara... A ambulância já tá vindo... – Eu disse, não obtive resposta.

Passaram-se uns 5 minutos e a ambulância chegou, acompanhei o Jimmy, e Luana estava comigo. Chegamos ao hospital, Jimmy foi levado imediatamente para a sala de cirurgia em uma maca, fiquei na sala de espera com a Luana, se passaram quase 3 horas e ainda nenhuma resposta. Até que finalmente apareceu um médico.

- Nós tentamos tudo... Mas infelizmente ele não resistiu aos ferimentos... Sinto muito. – O médico disse.

Naquele momento, eu desabei em prantos, procurei conforto nos braços de Luana, sem resultados, ela também estava chorando. Voltei para casa, Luana estava comigo e contou tudo para a minha mãe, ela também chorou. Não consegui ver a minha mãe naquele estado, disse para a Luana ficar com ela e vim para o quarto.

Até agora não consigo acreditar que o Jimmy morreu, parece que tudo isso é uma grande pegadinha armada por ele, eu quero acreditar que é, quero acordar desse pesadelo.

Hoje foi o pior dia da minha vida. Perdi o melhor amigo que uma pessoa poderia ter...

Eu poderia ter salvado ele... Eu poderia...

Henrique Soares, 25 de Agosto de 2000.

domingo, 23 de agosto de 2015

Sobre Amor, Medo e Alzheimer

Todos nós temos objetivos em nossas vidas, faz parte da nossa natureza, e alguns tentam organizar e planejar estes objetivos, outros preferem ficar em casa vendo programas padrão Rede Globo e comendo besteira. Bem, não ligo muito para o que as pessoas querem para elas, mas atualmente parece que todos ao meu redor estão com um objetivo incontrolável de encontrar um amor ideal o mais rápido possível.

Ahhh, o amor... Não tenho muito o que falar sobre o amor a mais do que todos já saibam sobre esse tema, e não entendo como o ser humano busca durante toda a sua vida o significado para esse sentimento que por muitas vezes é traiçoeiro e que pode te machucar.

Porém nossas vidas são movidas por este sentimento, nós sentimos amor durante todo o nosso dia, seja pela nossa família, amigos, trabalho, estudos, enfim, nos apaixonamos por (quase) tudo o que fizemos na vida.

Às vezes me sinto incomodado com essas pessoas que forçam o amor por outro alguém, como aqueles caras baladeiros que ficam com uma garota diferente a cada mês e não conseguem manter um relacionamento duradouro, ou aquelas pessoas que esquecem de todos os seus amigos para dedicar o seu tempo livre ao seu parceiro (a) com medo de perdê-lo (a).

O medo é outro sentimento traiçoeiro, e provavelmente seja o que eu mais estou sentindo atualmente, sentimos medo da perda, de altura, de animais, enfim, existem tipos de medos para tudo, porém podemos tirar vantagem desse sentimento se nós soubermos lidar com ele, sabendo enfrentá-lo e vencê-lo usando nossa força de vontade e coragem.

Creio eu que estou conseguindo controlar muito bem os meus medos, exceto por uma coisa, o medo da morte. Não entendo essas pessoas que dizem que não têm medo de morrer, eu não tenho apenas um puta cagaço da morte, como pela morte por consequência de alguma doença degenerativa, como Alzheimer, por exemplo.

Alzheimer pra mim, ao lado do câncer e da AIDS, é uma das piores doenças que existe, pois não consigo imaginar nada mais injusto na vida do que morrermos sem nos lembrar de quem nós fomos durante toda a nossa existência. Sinto medo de morrer sem perceber que minha vida foi boa, que consegui me esforçar em tudo àquilo que eu podia e nem sequer perceber que eu serei lembrado... Droga, eu quero muito ser lembrado depois de minha morte.

Talvez a vida seja curta para encontrarmos o amor, talvez sentimos mais medo do que amor, porém acho que deveríamos respeitar esses dois sentimentos ao máximo, porque são esses sentimentos os pilares principais que movem a nossa vida.

Amor e medo são parecidos e estão lado a lado, sentimos medo da morte porque amamos a vida, sentimos amor por uma pessoa e temos medo de perdê-la, são condições psicológicas que carregamos conosco, e apesar desses sentimentos machucarem muito, não conseguimos viver sem eles.