segunda-feira, 22 de junho de 2015

Minha Vida Injusta - Parte 8: 22 de Junho de 1996


- Meus pêsames, cara. – Jimmy me abraçou, ele realmente estava triste por mim, talvez mais triste até do que eu mesmo.

- Tudo bem, valeu. – Respondi.

Estávamos do lado de fora da capela esperando a preparação para finalmente começar o velório, depois de um tempo, um dos caras da funerária saiu.

- Familiares primeiro, um de cada vez. Depois a capela estará liberada para todos. – O cara da funerária disse, procurando com o olhar os familiares.

- Vá primeiro, meu filho, eu espero aqui. Estou bem. – Minha mãe olhou para mim e percebi que ela realmente não queria entrar lá primeiro, então a obedeci e entrei.

E lá dentro, no caixão, no centro da capela estava ele, o meu pai. Me aproximei do caixão e fiquei olhando para o rosto dele, nunca havia visto esta expressão em seu rosto antes, não parecia que ele estava dormindo como algumas pessoas costumam dizer. Por um momento pensei que ele iria se levantar dali, mas essa idéia saiu da minha cabeça quando toquei em suas mãos cruzadas, ele estava gelado, como se fosse uma pedra de gelo, nunca senti algo assim ao tocar em alguém, naquele momento percebi que ali na minha frente não estava mais o meu pai, era apenas um corpo sem vida. Não chorei naquele momento, não consegui chorar ali, apenas saí da capela e vi a minha mãe entrando. Não havia muitas pessoas no velório, apenas alguns familiares mesmo e o Jimmy, na realidade o meu pai não tinha amigos.

Bem, percebi relendo as páginas anteriores do meu diário que eu sempre mencionei o lado alcoólatra do meu pai, que, pra falar a verdade, é a característica que eu mais me lembro dele em toda a minha vida, infelizmente. Mas nunca cheguei a escrever aqui quem realmente ele era.

Quando jovem, meu pai chegou a estudar enfermagem, mas nunca concluiu o curso, talvez essa tenha sido a maior frustração de sua vida, ele realmente queria se tornar enfermeiro, mas teve que sair do curso de enfermagem por causa da situação financeira, já que o curso era pago. Ele chegou a dizer em algum momento da minha infância que iria voltar a fazer o curso, coisa que nunca aconteceu.

Não demorou muito e assim que ele terminou o ginásio conseguiu um emprego como secretário no escritório de um amigo dele, ele estava ganhando muito bem, até conseguiu comprar um carro e um terreno para construir uma casa, porém o seu carro não durou muito, já que era um carro de segunda mão, sempre dava problemas, até que chegou uma hora em que não havia mais conserto, então o meu pai acabou vendendo a carcaça do carro para se dedicar à construção da casa.

No dia seguinte ao dia em que meu pai se livrou do carro, sem alternativas ele acabou tendo que ir para o trabalho de trem, ele acabou sentando ao lado de uma mulher que estava lendo um livro com alguma coisa sobre medicina. Meu pai perguntou sobre o livro e eles acabaram conversando durante todo o percurso do trem, até que no fim, quando ele percebeu que ainda estava cedo para chegar ao trabalho, convidou essa mulher para tomar um café, algum tempo depois eles começaram a namorar, se casaram e sim, esta mulher é a minha mãe.

A partir daí eu começo a pensar em como a vida é engraçada. Sabe, e se o carro do meu pai não tivesse quebrado? E se ele tivesse pegado outro trem num horário mais cedo? E se ele tivesse se atrasado? Ou se ele não tivesse se interessado pelo livro que minha mãe estava lendo naquele dia? Eles nunca teriam se conhecido e eu não estaria aqui neste momento escrevendo isso. São coisas desse tipo que me fazem acreditar no destino, era para acontecer, tudo aquilo provavelmente estava pré-determinado por alguma força no universo para fazê-los se conhecerem.

A minha mãe se interessava por medicina na época, mas ainda não estudava por falta de grana, no fim das contas ela nunca estudou medicina de fato. Quando eles se casaram, minha mãe já estava grávida de mim, sabendo disso, meu pai agilizou a construção de nossa casa, mamãe o ajudou, ela largou o ginásio para começar a trabalhar como costureira, ela é mais jovem que o meu pai e na época que eles se conheceram ela ainda estava na escola. Enfim, após alguns anos e até mesmo depois de eu ter nascido, a casa estava cem por cento concluída.

Nessa época o meu pai era muito carinhoso e gente boa, principalmente com a minha mãe e comigo, não lembro direito dessa época porque eu era muito novo, mas as coisas começaram a mudar quando eu tinha uns quatro anos.

Tudo começou quando o chefe do meu pai resolveu vender a firma. Sob nova direção, houve um corte inacreditável de funcionários e o meu pai estava incluído nesta lista. Após isso ele tentou arrumar todo tipo de emprego, mas ele não conseguia ou não durava nem um mês. Era final dos anos 70, a taxa de desemprego no Brasil nessa época estava muito alta, os militares não estavam ajudando o povo, foi uma época difícil de se viver neste país.

A minha mãe, que na época tinha voltado a estudar, viu num dia que estávamos quase sem comida e sem dinheiro para comprar mais, vendo esta situação, ela resolveu largar os estudos novamente e começou a trabalhar como faxineira na casa de um executivo que a pagava muito bem. Meu pai se sentiu mal por ter visto a minha mãe largando tudo novamente para sustentar a família, ele ficou realmente muito deprimido, e isso o fez ir para o álcool.

Como meu pai não tinha dinheiro, ele começou a pegar escondido o dinheiro da carteira da minha mãe, um dia ela o flagrou fazendo isso e ficou com raiva, ele saiu de casa a tarde e só voltou à noite, chegou bêbado, acho que foi a primeira vez que vi meu pai bêbado. Minha mãe, vendo essa situação, chamou a atenção dele, ele ficou com raiva e bateu nela, isso aconteceu na minha frente, ele virou pra mim com um olhar de “ta olhando o que?” e me bateu também, eu chorei, minha mãe estava chorando também, desde então, essa situação passou a ser quase uma rotina em casa.

Minha mãe realmente o temia, pois um dia ele a ameaçou de morte. Depois do dia em que ele quebrou o meu toca discos e que eu saí de casa, ele enlouqueceu, começou a ameaçar qualquer desconhecido na rua e querer arrumar confusão, para o seu azar, ele acabou espancando quase até a morte um adolescente que depois foi descoberto que era o filho de um policial. Ele foi condenado a cinco anos de prisão por tentativa de homicídio, e no ano passado ele saiu da cadeia, minha mãe estava com medo por causa da ameaça de meu pai, mas o que aconteceu foi bizarro. Quando ele chegou em casa ele abraçou e chorou no ombro dela, parece que os cinco anos de prisão foram traumatizantes para ele, desde aquele dia ele ficou muito calmo, não bebia mais. Há mais ou menos três meses atrás fomos num jantar em família, ele brincou conosco, conversou, foi um ótimo dia, então ele falou uma frase que eu nunca mais irei esquecer em minha vida:

- Eu estou feliz!

Ele foi sincero, deu para perceber em seus olhos, aí eu pensei que um dia eu também irei encontrar essa felicidade, um dia eu conseguirei dizer estas palavras com esse nível de sinceridade, um dia...

Após esse dia, mais ou menos uma semana depois, meu pai acordou de madrugada se sentindo muito mal, o levamos até o médico, ele acabou diagnosticado com cirrose e úlcera, os médicos disseram que o estado dele era delicado e que ele precisaria ficar internado, ele ficou no hospital até anteontem, quando recebemos a notícia de sua morte.

Depois do enterro fui para casa junto com minha mãe, fui para o quarto, fumei alguns cigarros e aqui estou eu, comecei a chorar bastante enquanto escrevo aqui, parece que finalmente a ficha caiu.

Apesar de tudo, meu pai nos amava, e ele provou isso nos últimos dias de sua vida, ele não queria nos machucar, nunca quis, foi apenas uma consequência dos momentos difíceis que ele teve na vida. Irei sentir muita falta dele.

Henrique Soares, 22 de Junho de 1996.

domingo, 7 de junho de 2015

Eu Queria Muito Fumar Cigarro


Eu queria muito fumar cigarro. Quer dizer, eu não fumo porque eu tenho essa mania de fazer escolhas saudáveis pra minha vida. Mas eu observo o fumante e tenho inveja dele. O fumante é, antes de tudo, um resignado. Já aceitou que a vida é uma causa perdida, já aceitou a inexorabilidade do tempo e já aceitou esse time do Vasco. Já que vai dar merda de qualquer jeito é melhor acender um cigarrinho enquanto há tempo.

Eu queria muito aceitar as coisas também. O cigarro traz essa aceitação. Eu acho que o tabagismo é a solução pra todos os meus problemas. Ninguém é mais tranquilo e dono da situação que a pessoa que fuma. Porra, eu queria muito ser dono de uma situação um dia.

Há uma certa contemplação no discurso da pessoa que fala enquanto fuma. As pausas para tragadas adicionam um suspense duro de igualar, o peso das palavras se transforma.

“Daqui a pouco eu tenho que ir ali…” (tragada)

Ai meu caralho. Ela tá indo! Ir ali onde? Com certeza é alguma coisa importante. Que mistério. Eu não sei se vou aguentar. Eu preciso saber onde ela vai. E por que ela vai. E como ela vai. Isso se é que ela vai. Pode ser que ela nem vá. Ela pode tá jogando comigo. Eu to achando que ela não vai é nada. Será que eu vou também? Não… eu, Everton Loureiro, indo? Acho que não. Acho que isso não é pra mim. Meu Deus, que aflição. Aaahh, se eu tivesse um cigarrinho aqui comigo. Ai eu ia tá de boa. Era só acender e entrar nessa contemplação. Eu aposto que não tem laço mais forte que duas pessoas que fumam juntas. Ai meu Deus, ela tá mexendo a boca, ela vai falar!

“…comprar mais cigarro”.

Puta que pariu, eu sabia que era importante.