segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Um Conto Sobre Baratas, Empregos e Outras Coisas que Definem o Sentido da Vida

Ele andava pela rua a caminho do trabalho, sem sono, porém cansado, o relógio marcava 14:00 hrs e era verão, calor infernal e nenhuma sombra naquela maldita rua, apesar de tudo, era mais um dia normal, o caminho um pouco mais estressante pois ele havia esquecido de carregar o seu celular na noite anterior e que agora, sem poder ouvir musicas no caminho o som dos seus pensamentos pareciam mais altos que o normal, mas o que ele ouviu a seguir definitivamente não eram os seus pensamentos.

- Ei, moço, você poderia me ajudar, por favor? – Ele ouve uma voz doce, estranhou o termo “moço”, já que esse termo parece ser direcionado para senhores e que para ele, com seus 25 anos, soava estranho. Ele redirecionou o olhar, procurando a fonte da voz, não vinha da rua, e sim de uma janela a sua direita, no segundo andar de uma casa, ele viu uma bela jovem, com os cabelos presos, com certa expressão de desespero. Claro que ele estava atrasado para o trabalho, mas não custava nada parar para ajudar a jovem.

- O que houve?

- Um minutinho, vou abrir o portão para você. – Demorou menos de um minuto para ela desce e abrir o portão, ela era pequena e magra, usando um vestido simples e confortável para se usar em casa no verão, aparentava ter uns 18 anos, ou talvez menos. – Me desculpa ter tomado o seu tempo, mas tem um monstro enorme no meu quarto, e eu tenho fobia, me ajuda a matá-lo, por favor?

Ele não entendeu nada no começo, então, guiado por ela, subiu até o seu quarto, chegando lá ela aponta para um canto.

- Ali! Mata, mata! – Era uma barata, apenas uma barata, nisso ele começou a pensar que estava sendo vítima de uma daquelas pegadinhas infames do João Kleber, tudo bem, se fosse uma pegadinha ele se deixaria levar, melhor que negar o favor e ser chamado de medroso. Olhou para a barata e não era uma barata comum, era uma daquelas que aparecem em filmes americanos, sabe-se lá da onde esse inseto veio.

- É realmente algo a temer, é grande de verdade, vou dar um fim nela. – Ele tirou o tênis, poderia ter pedido pra moça um chinelo, mas preferiu tirar o tênis, se aproximou lentamente do inseto, mas antes de acertar a barata correu para detrás do armário, como se tivesse pressentido a morte.

O vão entre o armário e a parede era muito curto e não dava pra enxergar muita coisa.

- Droga, o bicho é rápido, não dá pra ver nada aqui, me ajuda a empurrar o armário. – Ela o ajudou, mas o armário era enorme e pesado, só sairia do lugar desmontando-o.

- Ok, isso não ta dando certo, vamos para o plano B – Ele disse – Vou comprar inseticida, você fica aqui vigiando enquanto isso.

- Não, inseticida não dá, eu sou alérgica.

- Putz, ok, então vou ver o que eu posso trazer pra tirar o bicho daí, não se preocupe, vou dar um jeito.

E lá foi, ela ficou apreensiva, não sabia se ele iria voltar, mas o deixou ir, ele sabia que havia um mercadinho no final do quarteirão, cerca de quinze minutos depois, ele estava de volta, não parecia preocupado com o atraso do trabalho, e sim em acabar com o maldito inseto, pelo jeito a barata continuava no mesmo lugar, ele gastou doze reais de seu bolso, não fez questão de gastar, mas ele trouxe algo.

- Olha aqui, trouxe isso, não é tóxico, parece que você liga isso na tomada e daí é liberado uma espécie de feromônio que atrai as baratas, e quando chegam até o aparelho, elas tomam uma espécie de choque ou algo do tipo, parece ficção científica, mas o vendedor me garantiu que funciona, ele pode ter me enganado, mas não custa nada tentar, onde tem uma tomada?

- Ali – Ela aponta para a parede da esquerda, abaixo da janela e próximo a cama, ele liga o aparelho.

- E agora? – Ela pergunta.

- Agora só nos resta esperar, não se preocupe, só sairei daqui com o cadáver desse bicho.

- Desculpa ter tomado o seu tempo.

- Não se preocupe.

- Oh meu Deus, com todo esse calor que ta fazendo, nem te ofereci um copo d’água, quer?

- Aceito.

Ela foi buscar o copo d’água, enquanto isso ele ficou no quarto de guarda caso o inseto saia da toca, ela não se importava com um estranho em seu quarto, pois não tinha nada de valor pra ser roubado, o quarto era bem simples, ele olhou ao redor do cômodo e percebeu que ela era uma garota bem organizada, deu uma rápida olhada numa pequena coleção de discos que havia ali e ficou impressionado, ela volta com a água.

- Uau, você curte Lighthouse Family?! – Ele destacou

- Nossa, amo! – Ela fez uma pausa e começou a cantar um pedaço de “Ain’t No Sunshine” – A versão deles é a melhor! Pena que eles se separaram tão cedo.

- É mesmo. Sabe, às vezes me pergunto por que.

- Talvez eles já teriam conquistado tudo aquilo que queriam, então resolveram parar já que dali pra frente a coisa ficaria sem graça. Sabe, objetivos, é isso que move a vida humana.

- Acredita mesmo nisso? – Ele perguntou, foi uma pergunta retórica.

- Sim, e se existir vida eterna, será uma chatice, já que teremos a eternidade para conquistar todos os nossos objetivos.
- Ou talvez os nossos objetivos também sejam eternos. – Ela não esperava essa resposta dele, eles se sentaram ali no chão mesmo, encostando-se à beirada da cama.

- Você mora aqui sozinha?

- Sim, faz algum tempo, meu pai morreu e deixou essa casa pra mim na herança, afinal, éramos só nós dois.

- Meus pêsames.

- Tudo bem.

Houve um silêncio.

- Você estava indo pra onde? – Ela perguntou apenas para quebrar o silêncio.

- Pro trabalho.

- Oh, desculpa se fiz você perder...

- Tudo bem. – Ele a interrompeu – O meu trabalho é uma chatice, é bom sofrer uma adrenalina de vez em quando, e é só um emprego provisório, ainda não consegui coisa melhor.

- Isso não é chato? Quer dizer... Por que diabos não podemos fazer aquilo que a gente quer? Tipo, quando criança eu queria ser bailarina, sempre quis na verdade...

- E por que não se tornou bailarina? Quero dizer, suponho que você não seja.

- Não – Ela deu uma risadinha – Trabalho como caixa de supermercado, o fato de eu não ter me tornado bailarina é bem simples, eu precisava comer, então tive que arrumar um “emprego de verdade”.

- Aí está. Por que as coisas legais não podem ser consideradas “emprego de verdade”? Por que você tem que ter sorte para ganhar dinheiro sendo músico ou pintor e basta ter um diploma pra se tornar um executivo?

- Talvez porque seria muito legal, e não está no plano da sociedade a vida ser tão legal assim. E já pensou se isso for uma ilusão?

- Como assim?

- Talvez tudo o que os músicos e pintores querem é se tornarem executivos, pois a vida profissional deles são chatas.

- Acho que não, mas se for verdade, essa teoria também deve ser aplicada para as bailarinas.

- Claro – Ela riu – Por isso que eu desisti.

Houve uma nova pausa, dessa vez um pouco mais curta.

- Ás vezes é melhor não fazermos nada, passarmos despercebidos. – Ela disse com um tom de voz mais sério.

- Pode ser, mas acrescentando, fechar os olhos e apenas deixar a vida te guiar também pode ser uma boa alternativa.

- Ok, agora você é oficialmente o cara mais vivido que eu conheço, apesar da idade. – Ela disse em tom de deboche e fez uma pausa – Quantos anos você tem?

- Quantos você acha?

- Hum, deixa eu ver... Que tal 19? Acertei?

Ele riu.

- Queria voltar a ter 19.

- Ok, 21?

- Você realmente me acha novo assim?

- Ta, 30 então.

Ele hesita.

- Acertou.

- Sério?

- Não. – Ele deu uma risada. – 25.

- Ok, você venceu.

- E você?

- 21.

- Achei que você tivesse menos.

Mais um hiato, dessa vez um pouco mais longo.

- Seu coração já foi feliz? Quero dizer, você já teve vida amorosa? – Ele pergunta.

- Já tive sim, mas não posso dizer que meu coração foi feliz, sabe, em alguns momentos sim, em outros, não, enfim, existem coisas no mundo que não importam. E você?

- Também fui feliz e fui triste, como você disse, em alguns momentos não importa muita coisa, é apenas o momento.

Ela acabou debruçando o corpo e encostando a cabeça no ombro dele, por um certo período de tempo os dois se calaram e não pensaram em nada. Até que ele viu a barata saindo de trás do armário e indo na direção da tomada, porém o inseto acabou dando uma parada no meio do caminho, bem ao lado dele. Ela estava de olhos fechados com a cabeça encostada no ombro que não viu quando ele pegou o seu chinelo com cuidado para não fazer nenhum ruído e acertou a barata em cheio, matando-a.

- É! Eu matei! – Ele gritou, extasiado.

Ela abriu os olhos e viu o cadáver, os dois comemoraram.

- Acho que a minha missão aqui foi cumprida, já devo partir. – Ele disse.

- Eu o levo até o portão.

Eles nem perceberam que se passaram quase uma hora desde o início do acontecimento. Chegando no portão, ela o agradece.

- Muito obrigada mesmo!

- Eu é que agradeço... É... Eu nem sei o seu nome...

Ela o abraça bem forte e diz próximo ao seu ouvido, quase que sussurrando.

- Isso importa?

Ele sorri e responde.

- Acho que não...

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Um Conto Sobre Madrugada, Fantasmas e Amizade

Estava no quarto, de madrugada, sem sono, de baixo do cobertor mesmo com a temperatura lá fora alta para esta época do ano, meus pais em outro quarto. Não consigo dormir, pois é a primeira noite nesta nova casa, ainda não me acostumei a mudar de estado, deixar tudo no passado, perder amigos só porque meu pai teve que ser transferido de batalhão devido a problemas com um garoto negro há dois meses atrás que o acusou de racista e nazista depois que o meu pai o pegou vendendo drogas durante as folgas do batalhão e o acusou.

A casa nova é bem grande, é daquelas em que tudo fica no segundo andar e no primeiro andar é apenas uma enorme sala. Bem, é grande e pelo visto bem antiga, dizem que foi usada no passado como abrigo provisório de algumas crianças e adolescentes viciados em cola, antes dessas crianças começarem a adotar os arredores da candelária como lar, na verdade não há muito sobre a história dessa casa seja em bibliotecas ou na internet, sei dessa história porque foi o vendedor que disse, vai saber se ele estava dizendo a verdade.

Está uma noite bem quente e ainda estou coberto, apesar de estar suando bastante, resolvo levantar para ligar o ar-condicionado, dou uma ligada na tv e está reprisando o jogo entre Brasil e Croácia na copa do mundo, é chato assistir novamente a um jogo quando você já sabe o resultado final, então desligo a tv, pensar na vida antes de dormir sempre funciona... Ou não.

Só devem ter se passado uns cinco minutos desde o momento em que liguei o ar-condicionado e já parece que estou no pólo norte, é até estranho isso já que liguei o ar no mínimo, deveria estar com defeito então o desliguei, se passaram mais uns trinta minutos e o frio continua, penso que deve ser o tempo que está mudando então retorno a minha tentativa frustrada de pegar no sono.

Alguns minutos depois começo a ouvir vários ruídos, talvez a casa seja tão velha que esteja desmoronando aos poucos, até faz sentido, pois pagamos um preço bem baixo se levar em conta que a casa é realmente grande, o frio ainda não passou, será que estou com febre? Olho para o lado e percebo vultos, me assusto, tem mais alguém no meu quarto, sim, acho que estou com febre e delirando, porém acontece algo que não é delírio, a luz do abajur se acende sozinha, não foi nada perto do que aconteceu a seguir, olho para o lado e vejo três garotos no meu quarto, não sei como eles entraram, já que costumo trancar a porta do quarto antes de dormir, e não há sinais de arrombamento, tento dizer algo para eles, mas estou paralisado, até que um dos garotos se aproxima e diz com uma voz bem calma.

- Não tenha medo, só estamos aqui para alertá-lo, dentro de 12 horas, você estará morto, esta casa já teve muitas vítimas em sua história, não precisamos de mais. - Depois disso os três garotos se viram, andam um pouco em direção a parede e somem, não como se tivessem atravessado a parede, mas como se tivesse uma porta ali.

Fico sem reação por alguns minutos, com medo, até que levanto e pego um termômetro dentro da gaveta que fica na mesa de cabeceira, coloco o termômetro e olho no relógio, são 1:48 da manhã, conto uns cinco minutos e tiro o termômetro, olho a temperatura e  vejo que estou com 36,6°C, não estou com febre, sem delírios, será que foi real?

Tento esquecer o que aconteceu e voltar a dormir, se eu não conseguia dormir antes, imagine agora, vem a minha cabeça cenas de "O Sexto Sentido", "Atividade Paranormal" e filmes assim, então resolvo acender novamente a luz do meu abajur, sentar na cama do quarto e olhar pro nada, falo "Hey, não entendi" num tom alto, evitando gritar para não acordar os meus pais, aguardo um pouco para ver se obtenho alguma resposta, demora alguns minutos e ouço claramente.

- Por que você não está agindo? Restam apenas 11 horas.

Mesmo com medo tento responder.

- Pois é, eu não entendi, 11 horas pra que?

De repente surge um dos garotos que apareceu anteriormente sentado do meu lado, mas não o mesmo que falou comigo na primeira vez, seu rosto está bem abatido, porém calmo, ele olha pra mim, sorri e diz.

- Não precisa ter medo, não vamos te fazer nenhum mal, só estamos aqui para alertá-lo, em menos de 11 horas você estará morto aqui neste quarto, isso não precisa acontecer novamente, não nesta casa.

- Como assim não precisa acontecer novamente? – Digo, os outros dois garotos surgem na minha frente, começo a me acalmar, mas ainda me sinto tenso. O terceiro garoto começa a dizer.

- Terminamos nossa história nesta casa e agora não sairemos mais daqui, não queremos que isso aconteça com você, você é mais velho que nós, é bom que viva mais, não precisa terminar desse jeito.

- Quem são vocês? – Pergunto, porém já imaginando o que seriam, são mortos, espíritos, já saquei, não sei se sou médium ou algo do tipo e estou manifestando isso agora, só sei que tem espíritos no meu quarto, e isso era real, mas curiosamente, o primeiro garoto usou uma resposta diferente.

- Somos amigos – Ele disse, fez uma pausa e continuou falando – Não de verdade, mas somos amigos.

- Como assim não de verdade? Tipo imaginação minha?

- Não – Ele disse – Não é a sua imaginação, digo que não somos amigos de verdade porque você nunca irá poder sair conosco para festas, cinema, etc. Considere-nos amigos do tipo que você faz num dia em alguma fila e depois nunca mais o vê.

- Ok, já sei que vocês vieram me alertar e tal, isso eu já entendi, mas o que exatamente irá acontecer aqui nesta casa daqui a menos de 11 horas? – Nisso, o primeiro garoto respondeu.

- Ela está vindo, não sabemos como ela irá se personificar, mas sabemos que ela está vindo e chegará daqui há 11 horas.

- Eu acho que me perdi, quem está vindo? – A expressão do garoto mudou para apreensivo quando ele respondeu.

- A morte.

Fico um pouco tenso.

- Tudo bem, vocês disseram que iriam me ajudar, podem-me dizer como irei morrer? Seria uma puta ajuda.

- Não sabemos, apenas pressentimos a morte, não prevemos o futuro.

- O que aconteceu com vocês?

- Éramos conhecidos antes disso tudo acontecer, sabe, amigos de cheirar cola, estávamos aqui pois uma senhora, a antiga dona desta casa acreditava que nos tirar da rua era um bom começo pra nos reabilitar, o que aconteceu foi que essa senhora tinha um marido violento, que expulsou as crianças daqui, e nós três que resistimos, acabamos com uma faca no nosso peito, claro que o homem foi preso e acabou morto na prisão, a partir disso nós três ficamos amigos na pós vida, e descobrimos que se nos tornássemos amigos antes de nossa morte, talvez as coisas seriam diferentes, mais amigos nossos morreram na Candelária, mas não conseguimos encontrá-los, estamos presos dentro desta casa, estamos condenados a passar a eternidade aqui. Agora precisamos ir, haja rápido.

- Ei, espera! – Eu grito, mas os três desaparecem novamente, penso um pouco e resolvo pesquisar sobre isso, ligo o notebook e procuro na internet algo sobre esta casa e alguma relação com a Candelária, não encontro muita coisa, nada além de um artigo sobre antigos moradores que afirmam que esta casa é assombrada pelo demônio, porém é um artigo sem nenhuma fonte e postado em um blog especializado em humor negro. Não encontro nada sobre os três garotos, mas depois de procurar muito acabo encontrando algo sobre o homem que matou os três garotos, nada específico sobre o crime, é mais uma notícia sobre a morte do cara na cadeia, e a única informação contida na matéria sobre os três garotos era que eles foram enterrados como indigentes, começo a pesquisar algo sobre “espíritos que conseguem pressentir a morte” e não encontro nada além de teorias bobas e contos espíritas que deixaria Chico Xavier com raiva.

Percebo que essa pesquisa tomou muito do meu tempo, já são 2:53 da madrugada, ou seja, menos de 10 horas para o acontecimento, penso que deveria agir logo, mas agir como? Simplesmente saindo de casa na madrugada? Iria acabar morrendo de qualquer jeito, já que a criminalidade lá fora está complicada, tento pensar em outra solução, manter meu quarto trancado seria uma boa, porém não deve ser 100% seguro, já que não sei como isso irá acabar, vai que a casa desaba, não iria adiantar nada de eu ficar dentro do quarto. Penso por muito tempo, já são 3:00 da manhã.

Começo a ficar com sono, será que dormir seria um erro? Talvez sim, provavelmente eu não teria tempo para agir porque acordaria tarde, e ser for um blefe dos espíritos? E se realmente forem espíritos, como ter certeza absoluta que irei morrer daqui a pouco? Mesmo com estas questões resolvo me manter acordado, vou para a cozinha e faço café, já são 3:20 da manhã, é incrível como o tempo passa rápido quando você não quer que passe. Faço uma quantidade de café o suficiente para mim, mas não adianta muita coisa, ainda me sinto com sono, volto para o meu quarto, e numa última tentativa desesperada, tento chamar os espíritos, não chego a gritar para evitar acordar os meus pais, mas digo um “Ei” com um tom de voz um pouco elevado, e depois de algum tempo, obtenho respostas.

- Você não está acreditando em nós. – Surgem novamente os três garotos.

- Eu só preciso de alguma distração, para não pegar no sono até o amanhecer.

- Tudo bem. – Um deles disse, os três se aproximaram de mim, o mais próximo começou a falar com um tom amigável – Vamos conversar, já lhe contamos sobre nós, agora nos conte sobre você.

- Bem, vim morar nessa casa porque meu pai é militar e...

- Já sabemos disso, ouvimos várias conversas desde que vocês vieram para cá, conte algo que não sabemos. – Disse o garoto que estava mais longe de mim.

- Ok, vamos lá então. Eu dizia que meu pai é militar e... A propósito, eu odeio o meu pai. – Tentei ser sincero, taí algo que eles não sabiam, porque nunca contei isso para ninguém.

- Por que você o odeia? – O garoto que estava nem tão perto e nem tão longe pareceu interessado.

- Ele é violento, quando eu era criança ele me espancava e me chamava de “Praga”, falava coisas do tipo “Você deveria ter sido abortado” e batia na minha mãe também, mas minha mãe acabou indo até a delegacia da mulher então ele acabou preso por alguns dias, depois disso ele nunca mais encostou um dedo na minha mãe, aliás, ele se acalmou por algum tempo, mas parece que agora recomeçou, sabe, todo esse lance com o garoto negro, isso me preocupa. – Começo a chorar um pouco – Ele me fez largar toda a minha vida, meus amigos, pra me mudar pra cá, agora estou sem amigos e tendo que  ouvir ele reclamando o dia inteiro. Ele é o meu pai, às vezes eu gostaria de esmagar a cabeça dele na parede... Mas ele é o meu pai.

- Pelo menos você tem pai. – Um deles disse. – Nós não tivemos esta oportunidade, a sua vida pode ser injusta por isso, mas lembre-se que a vida não é justa, nunca é, mas nós lhe dizemos que a vida parece ser muito mais saborosa do que a pós vida. Enfim, e a sua mãe? Como que ela ta lidando com o seu pai atualmente? Pelo que observamos parece que está indo tudo bem.

- E está... Aparentemente. Apesar de só reclamar, meu pai não bate mais na minha mãe, apenas alguns xingamentos leves de vez em quando, ainda bem, ver meu pai batendo na minha mãe foi algo, digamos, traumatizante, nunca gostaria de ter visto isso, e acho que se eu visse aquela cena novamente, sinceramente não sei o que eu faria, passa tanta coisa na minha cabeça. – Pensei por um momento. – Sabe?! Nunca desabafei desse jeito para alguém, se é que pode considerar isso um desabafo, a verdade é que nunca esperava que vocês me ouvissem, acho que nem um psiquiatra daria certo, não teria coragem para dizer isso para um estranho, mas por incrível que pareça, vocês não parecem estranhos para mim apenas pelo fato de vocês morarem nesta casa a mais tempo do que eu, e parece que isso me deixa seguro o suficiente para comentar sobre isso, só... Não espalhem isso pela casa, não apareçam para o meu pai ou para a minha mãe para falar sobre isso, ok?

- Tudo bem, não se preocupe, o seu segredo ficará muito bem guardado conosco, nós iremos agora, talvez não voltaremos mais, então não perca tempo, comece a agir.

Tentei emitir uma resposta mais os três desapareceram, penso por um tempo, tentando bolar um plano, mas é difícil bolar um plano para algo que você não tem nenhuma idéia de como irá acontecer, então só me restou imaginar. Acabei imaginando alguém, talvez o garoto negro, invadindo a casa em busca de vingança e me matando, normalmente são coisas assim que acontecem nos filmes, embora seja difícil disso acontecer já que o garoto negro está em outro estado, bem longe de nós, mas sobre invadir a casa, poderia acontecer e poderia ser qualquer um, um assaltante comum, e como tentei reagir acabei morto, é, pode ser isso, é uma previsão plausível, então como irei evitar isso? Sair de casa? Acho que não iria funcionar, as coisas poderiam até piorar, do jeito que o Rio de Janeiro está, com um assalto a cada esquina e pessoas perdendo seu celulares aos montes, não acho que seria mais seguro ficar na rua, pensei em outra solução e talvez eu a tenha encontrado.

Abri com cuidado a porta do quarto dos meus pais e descalço, pois queria fazer o mínimo de barulho possível, andei até a gaveta da cama deles (a cama deles são daquelas que tem gavetas embutidas embaixo), abri e peguei a Magnum do meu pai, que ele sempre guardava ali em caso de emergência, peguei algumas balas também e saí do quarto, voltei para o meu, escondi a Magnum de baixo do meu travesseiro e deitei, mas não consegui dormir.

O sol acaba de nascer e preciso ir para a escola, eu sempre acordei e saí para a escola antes mesmo dos meus pais acordarem, coloquei a Magnum dentro da mochila pra não arriscar caso os meus pais resolvam xeretar o meu quarto e também para garantir alguma segurança caso eu seja surpreendido na rua. Estou com sono e com olheiras, nada acontece na escola além do comum que é alunos valentões me zoando porque sou novato e também por causa do meu sotaque leve e aulas chatas, e claro, nenhuma amizade ainda, o dia na escola me deixa puto, mas sobrevivo a ele, já estamos no início da tarde e além de sono estou com fome também, no caminho de casa olho para o relógio e são 13:40 da tarde, vai acontecer a qualquer momento.

Chego em casa e vejo que meu pai está muito bravo, acho que nunca o vi tão bravo desse jeito, talvez a mudança tenha feito mal para ele, também vejo a minha mãe chorando de desespero, então descubro o motivo de tanta raiva.

- Cadê a porra da minha arma, sua puta? Você sabe que ninguém tem o direito de encostar um dedo na minha arma! Cadê ela, porra? – Gritava o meu pai, ele estava realmente bravo.

- Eu não sei, eu não sei. – Minha mãe estava de joelhos no chão quando eu cheguei, chorando.

- Mentirosa.

Daí meu pai começou a espancar a minha mãe e a xingar muito, ele batia com muita força e ela chorava muito, nunca vi minha mãe apanhar tanto, não agüentei ver aquilo, peguei a Magnum de dentro da mochila, coloquei as balas dentro dela e a apontei pro meu pai, naquela momento não pensei em nada, apenas em salvar a minha mãe.

- Pára! – Gritei, meu pai olhou para mim e finalmente encontrou a sua arma.

- Mas que merda é essa? O que você ta fazendo?

- Não vou deixar você machucar a minha mãe!

- Seu filho da putinha, me devolve essa arma! – Não o ouvi, continuei apontando a Magnum para ele.

- Não se aproxime!

Meu pai era teimoso, ele se aproximou, não pensei duas vezes e disparei contra ele, o tiro pegou certeiro em seu peito, ele caiu no chão, agonizando, tentou dizer algo, mas não deu para entender, quando percebi, ele estava morto.

Percebendo o que eu acabei fazendo e vendo a minha mãe chorar, ainda por causa do meu pai, mas agora por outro motivo, corro para o meu quarto ainda segurando a Magnum. Algum tempo depois minha mãe ouve outro disparo e corre para o meu quarto, mesmo muito machucada. Chegando lá ela me encontra deitado no chão, com a minha cabeça estourada, segurando a Magnum numa mão e um pedaço de papel na outra com algo que eu tinha acabado de escrever, minha mãe lê o que estava escrito no pedaço de papel e não entende nada, não fazia nenhum sentido.

“Agora eu irei ter amigos.”, Era apenas isso que estava escrito no pedaço de papel.