quinta-feira, 30 de maio de 2013

Um Conto Sobre Encontros, Transporte Público e um Helicóptero dos Bombeiros

Ela subiu no ônibus e ele logo a reconheceu. Não era a primeira vez que se encontravam. Mesmo com o caos que é o transporte público no Rio de Janeiro, com o tempo ele passou a conseguir controlar esses encontros por acaso. De Copacabana até a Barra pela orla não são tantas opções de ônibus assim. Nem tão frequentes. Após esbarrar com ela umas duas vezes ele conseguiu prever o padrão: sempre dois pontos à frente do dele, por volta de 13h.


Então lá estavam os dois de novo. Dois pontos à frente do dele, por volta das 13h. Ele deslizou do assento da ponta para a janela na esperança dela tomar o lugar ao lado. Deu certo. Depois de todas aquelas vezes em que ele ficou ali, observando ela entrar no ônibus e passar direto e ficando um pouco decepcionado, ela finalmente sentou do lado dele! E agora ele estava ali, percebendo que não tinha nada para falar com ela, e ficando um pouco decepcionado. Ele escondeu os olhos com o livro do Verissimo e fingiu que não a tinha notado.

Já estavam na entrada de Ipanema quando ele decidiu dar uma olhadinha com o rabo de olho. Ela lia alguma dessas revistas pretensiosas sobre tecnologia. Certamente não ia notar que ele estava olhando.

- O que você tá olhando?

Ela tirou os olhos da revista e mirou nele.

- Ah, nada não, é só que… eu achei que você era uma conhecida minha.

- E era?

- Não. Acho que não.

Ela continuou fitando o garoto. Ela se divertia sabendo que estava o deixando sem graça. Ele voltou os olhos de novo pro livro, de onde não tirou mais, embora agora o problema fosse outro: aquele silêncio, atordoador, que deixa aquela bolha de constrangimento voando no ar.  Quando chegaram na Gávea ele colocou o fone e decidiu ouvir música.

Se pelo menos alguma coisa acontecesse, qualquer coisa que servisse para ter um contexto para falar de novo. O ônibus quebrar, algum acidente no caminho, uma nave espacial descendo do céu e ordenando ser levada ao nosso líder. Infelizmente esse não é o tipo de coisa que acontece na vida real.

Por sorte estamos na literatura. Quando estavam passando pelo elevado, uma nave desceu do céu, direto em direção ao mar. No último segundo se recuperou da queda. Era um helicóptero dos bombeiros, enchendo um balde enorme com água para apagar um incêndio, um pouco depois do túnel, que deixou o trânsito completamente parado.

Ela começou a reclamar do atraso que isso causaria. Ele começou a tecer comentários sobre o fato incrível de terem visto um helicóptero com um balde enorme pegando água do mar. Ela falou sobre como hoje ela tinha uma reunião importante e que tinha que chegar no horário. Ele continuou absolutamente impressionando com essa solução totalmente engenhosa que a humanidade tinha desenvolvido para apagar incêndios em locais de difícil acesso.

Quando finalmente chegaram aos seus destinos, já haviam criado um laço especial, desses que acontecem quando coisas inesperadas como um helicóptero dos bombeiros pegando água do mar para apagar um incêndio. Forte o bastante para fazer a gente tomar algumas atitudes que normalmente não tomaria. Nem ele, que era tão cuidadoso com seus livros, conseguiu resistir a oferecer emprestado aquele que estava lendo no ônibus, após o comentário dela de que adorava Verissimo, mas que esse ela nunca tinha lido. Entre risos, combinaram a devolução do livro para quando se encontrassem numa próxima, no ônibus.

Ela foi demitida por chegar atrasada e ele nunca mais viu aquele livro (nem a moça).

domingo, 12 de maio de 2013

Somos Tão Jovens - Crítica


Renato Russo, ídolo da música brasileira do final dos anos 80 e início dos anos 90 e que até hoje move milhares de fãs pelo Brasil. Este ano, o tão esperado filme sobre os seus primeiros acordes surge.

"Somos Tão Jovens" conta a história do jovem Renato Manfredini Júnior (Thiago Mendonça) durante a sua adolescência, até o ponto em que se torna o conhecido Renato Russo, passando por problemas de saúde, sonhos, amigos e a passagem da banda Aborto Elétrico para a Legião Urbana.

Um dos filmes nacionais mais esperados do ano, "Somos Tão Jovens" tinha tudo para ser uma cinebiografia excelente, já que conta a história desse mito do rock nacional, mas pelo fato de o longa focar apenas na origem da Legião Urbana, tudo pareceu muito superficial.


A história da doença de Renato Russo contada no início do longa passa tão rápido que quem não conhece a biografia de Renato Russo pode se perder um pouco no decorrer da trama, mas apesar disso, o decorrer do resto do filme é bem interessante, mostrando que o longa teve uma boa edição.

Infelizmente a direção de Antônio Carlos da Fontoura deixa muito a desejar, deixando o filme com muita cara de "Telefilme", em alguns momentos parecia que eu estava assistindo a "Malhação", em outros, alguma novela das 9 qualquer da Rede Globo.

O roteiro nos trás uma história bem contada do início da carreira de Renato Russo, mas peca pelo fato de focar mais no Renato do que no Aborto Elétrico ou no Legião Urbana, além disso, a criação de personagens fictícios (como a personagem Ana por exemplo) não da um tom de fidelidade a trama (apesar da personagem de Laila Zaid ser bem carismática).


Felizmente o filme tem uma "salvação" chamada Thiago Mendonça. Parece até que o ator está com a alma do próprio Renato Russo dentro de si, uma atuação tão boa que a vontade de assistir ao resto do longa se da conta só pelo fato de assistir mais Thiago Mendonça, mas apesar disso, os personagens secundários, como o Herbert Vianna, receberam atuações tão ruins que deram até raiva.

A maquiagem está ótima, fazendo o Thiago Mendonça ficar incrivelmente parecido com Renato Russo (principalmente quando ele está de barba), e a fotografia, apesar de estar mediana, deixa o longa com uma cara mais "cult" em algumas partes, a mistura de cenas com imagens reais também foi um bom feito, mas que não foi muito bem explorado.

Acho que o que mais deixou a desejar no filme inteiro foi o final, o filme simplesmente acaba do nada, e mesmo sabendo que se tratava apenas da história da origem da Legião, ao final do filme você fica com uma sensação de "é só isso?", e depois de uma boa edição no decorrer do filme, o final parece mais com um buraco, fazendo pensar que parte do material do filme foi perdido. No fim, parece que se encaixaria uma boa sequencia deste longa.





AVALIAÇÃO FINAL

Regular

Não cumpriu as expectativas, mas também não foi uma total decepção, o longa foi bem conduzido, mas ficaria bem melhor nas mãos de roteiristas e diretores mais competentes, Thiago Mendonça simplesmente rouba a cena. Eu esperava um longa mais dramático, mas não me importei de ser tão leve, isso fez o longa ser mais gostoso de assistir. O ponto mais fraco do filme é o final, que deixa muito a desejar. Enfim, é legal assistir a "Somos Tão Jovens" por curiosidade, mas se tratando de retratar a vida de Renato Russo, recomendo o documentário "Por Toda a Minha Vida" do cantor.

Ps: Quero agradecer aos mais de 300.000 acessos do Blog, valeu galera, vocês são demais! :)

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Sobre Erros, Futebol e Notas


Essa semana uma pergunta me moveu: Por que diabos as pessoas vêem só os erros dos outros? O lance foi que essa semana eu fui quase apedrejado porque cometi um erro (não interessa o erro, não agora), mas além disso eu tenho qualidades, e todo mundo tem.

Por exemplo: Eu sou um merda jogando futebol, num país onde é considerado "o país do futebol", pra falar a verdade nunca fui fanático em futebol, comecei a acompanhar alguns campeonatos no início da minha adolescência, após a copa de 2006, e apesar de ter ficado puto na época porque o Brasil perdeu, eu gostei do campeonato em geral. E assim as pessoas me xingam, falam que sou um ser humano fraco só pelo fato de não saber jogar ou não entender muito bem o mundo do futebol (grande merda).

Bem, eu nunca soube fazer algumas coisas, mas outras sim (como desenhar por exemplo), e sempre tento dar o meu melhor nas coisas que eu sei fazer, às vezes não consigo ser tão bom assim, mas tento fazer o possível. Mas de alguma forma as coisas que não sei fazer tem um peso maior que os meus "dons", e isso prevalece.

Outra coisa que veio na minha mente durante a ultima semana é o lance de notas baixas ou altas na escola. Sério, nota baixa, média ou alta, o que isso prova? Quem inventou que a inteligência das pessoas têm alguma ligação com as notas que ela tira na escola ou na faculdade? Eu me considero um cara inteligente, esperto, criativo etc, mas digamos que as minhas notas da escola nunca foram as mais altas da classe, passei raspando em alguns anos, e isso não me fez ser mais burro do que alguma garota nerd queridinha dos professores.

A conclusão que eu chego é que as pessoas não reconhecem as suas próprias qualidades, não reconhecem que aquilo que elas sabem fazer é a unica coisa que importa, que não interessa o que ela não sabe fazer, o que interessa são as diferentes características que cada pessoa tem, e isso basta. E que não quer dizer que só porque você foi reprovado numa faculdade de música não signifique que você seja ruim em música, se você mostrar o seu trabalho pra alguém que não entende de música (funkeiros), você será considerado uma pessoa muito boa.

Percebo que essas regrinhas impostas pela sociedade são falhas, coisas como notas, criticar pessoas sem conhecê-las bem são erros, e o mundo está cheio de pessoas assim. Imagino como deve ser no futuro, se tudo irá melhorar ou piorar, o caminho não está bom, mas acho que se olharmos primeiro as qualidades que cada pessoa tem, a sociedade seria mais legal e menos superficial.