domingo, 12 de janeiro de 2014

Um Conto Sobre o Ano Novo

Era pouco depois de meia-noite, e já iniciava um daqueles dias que seriam lembrados anos depois, talvez pelo resto das vidas. Não que isso seja incomum para este dia, pertencente à espécie daqueles que inauguram novos anos. No corredor do prédio, alguns amigos ainda se felicitavam.

- Porra, maldito! Procurei você na hora dos fogos, mas nem vi você lá embaixo.

- É, a gente não queria pegar chuva, ficamos por aqui no apartamento mesmo…

- Feliz Ano Novo, moleque. Você sabe que eu te considero pra caralho.

- Eu sei,

- Pra caralho!

- Eu sei. Tu é foda, cara. Eu gosto pra caralho de tu.

Trinta minutos antes.


Era pouco antes de meia-noite, uma dessas noites que precediam dias que seriam lembrados anos depois, talvez pelo resto das vidas. O caso é que para Breno e Evandro andava uma noite memorável de merda.

Mesmo naquele apartamento luxuoso da zona sul carioca e tendo à disposição uma variedade de formas de escapismo (cerveja e maconha pra caralho).

O plano era beber até esquecer a dor, mas o que é pior: a dor ou a ressaca?

- É essa merda de pressão pra ser uma noite memorável.

- Que pressão?

- A pressão, cara. Que a gente sente de ter que se divertir.

- Que pressão, cara? Que pressão?

- Você não sente? Por mim eu ficava em casa… Mas tá todo mundo na rua. Todo mundo. E porra, passar Ano Novo com a família é foda. É melhor vir encontrar a galera mesmo. Mas é foda, fica essa pressão pra gente se divertir. Por que TEM que ser uma noite irada?

- E que porra que isso tem a ver?

- Não tem, entendeu? Aí é que tá.
 
- Você pode dar o nome que quiser. Mas não foi a “pressão” que fez a Flávia terminar comigo. Não foi a “pressão” que fez você ficar desempregado. Tá uma merda porque tá uma merda.

- Ainda tá chovendo nessa merda.

Tava chovendo nessa merda, mais especificamente na rua, para onde o dono da festa estava chamando os convidados para irem ver os fogos.

- Cara, eu não to a fim de ir pra chuva não. Foda-se os fogos.

- Eu também não. Mas porra, vamos ficar sozinhos aqui?

- Dá pra ver os fogos daqui, cara.

- Não dá. Bora, vamo descer.

- Que se fodam os fogos.

- Tá todo mundo indo. A gente fica cinco minutos e vem embora.

- Que se foda, cara.

- Vamos, cara. Eu te prometo que não tem como ser pior do que a gente ficar aqui nesse apartamento trancado sozinho. (pausa) Tá, olha só. Olha pra blusa da Aninha. Tá vendo a blusa da Aninha? Branca, tá vendo? Olha ali, dá pra ver que ela tá sem sutiã. Imagina essa blusa branca molhada.

Muito embora ele soubesse que assim que pisassem pra fora do apartamento todo mundo abriria o guarda-chuva e ninguém de fato ficaria encharcado, apenas a imagem dos peitos da Aninha colados à blusa molhada deu um novo gás a Breno. Gás que foi embora assim que chegaram na porta do prédio.

- Ah, cara…

- Que foi?

- Olha lá pra cima! Ainda tem gente no apartamento. Você falou que vinha todo mundo! Eu vou voltar. Se você não quiser não precisa vir, mas eu vou.

- Esquece isso, cara! Não dá pra pegar o elevador agora, eles sempre desligam quinze minutos antes da meia-noite.

- É um andar só, porra! Eu vou de escada.

Evandro acompanhou Breno de volta para o prédio. Subiram os degraus de dois em dois. Devia faltar o quê?, um, dois minutos no máximo pra meia-noite. Não dava pra perder tempo ou acabariam passando a virada de ano ali mesmo, naquela escada, que por obra do Destino ou apenas por uma dessas sacanagens sem muita explicação que acontecem às vezes representava naquele momento um limbo, um espaço vazio entre duas festas, na casa e na rua. E eles, que passaram a noite toda se sentindo de fora, estavam ali naquele momento, entre uma coisa e outra.

Se eu fosse um cara de metáforas diria que era uma representação do estágio da vida em que se encontravam, na merda, sozinhos, um pouco perdidos, certamente atordoados, ilhas entre uma mar de felicidade. Por sorte eu sou um cara que acha metáfora um troço meio brega. Eles estavam em um corredor de prédio só.

Mas não por muito mais tempo, pois Breno já estava com a mão na maçaneta. Estranhou quando a maçaneta não girou. Tentou três vezes até entender que era do tipo que só abria com a chave.

- Fudeu. Essa merda só abre com a chave.

- Foda-se, toca a campainha, quem tiver ai dentro abre pra gente.

Tocaram uma vez. Duas vezes. Cinco vezes. Esmerilharam a campainha. Ninguém tava ouvindo nada, tava todo mundo na varanda do apartamento.

- E agora?

Fogos de artifício explodindo por todo o Brasil. Logicamente que eles só ouviram os que estouraram por ali perto da Lagoa, mas foi o suficiente pra anunciar que o ano velho já era, e já estavam iniciando um novo ciclo. Ali, presos no corredor.

Depois de um minuto em que não conseguiam parar de rir da própria miséria, finalmente alguém quebrou o silêncio.

- Ok. Não vamos contar pra ninguém isso, tá? Vamos fingir que passamos ai dentro pra quem vier de fora, e que passamos lá fora pra quem tiver ai dentro.

- Beleza. Mas daqui a um ano eu vou escrever um texto sobre isso no meu blog, beleza?