quarta-feira, 18 de março de 2015

Minha Vida Injusta - Parte 4: 18 de Março de 1988

Hoje o dia poderia ter sido normal, mas aconteceram coisas que eu não imaginava que iriam acontecer, e como prometi escrever aqui sempre que ocorrer algo importante na minha vida, vamos lá.

Acordei cedo e tive que me apresentar no exército, foi uma merda, discuti com um garoto e o sargento de lá disse que iria me fazer servir só por causa disso, o que não aconteceu, já que fui reprovado no exame de vista, devo dizer que ultimamente não ando enxergando muito bem, deve ser miopia, preciso providenciar uns óculos.

Cheguei com sono em casa e dormi, acordei já no fim de tarde. No meu aniversário de 18 anos, ganhei um toca discos de minha mãe, eu sempre ouvia uns discos do David Bowie que o Jimmy me emprestava, e hoje não foi diferente.

Fui até um orelhão e liguei para a Rafaela, marcamos para ir na Lapa, ela disse que iria entrar em contato com o Jorge também, ele já estava a um bom tempo afastado da gente, fui até a casa do Jimmy para ver se ele também iria, mas ele estava passando muito mal pois misturou bebidas e pegou uma puta ressaca, infelizmente o Jimmy ainda não se conformou com o término do seu namoro com a Simone, já faz uma semana e ele enche a cara todos os dias desde então.

Chegando à Lapa, encontrei com Rafaela, ela estava bem bonita, com um vestido preto e usando meia calça, começamos a beber vodca para entrar no clima.

- O Jorge disse que vem e vai trazer uísque. – Ela me disse, logo depois, Jorge chegou, ele estava horrível, muito acabado, cabeludo e barbudo.

- Vocês ainda estão no álcool?! Isso é fraco, onda de verdade é isso aqui, ó! – Era maconha, o suficiente para nós três.

- Tá maluco, cara? Isso mata! – Eu disse, realmente preocupado.

- Isso é mito, cara, é possível vocês controlarem... Faz o seguinte, só dá um trago, se vocês não gostarem, não perturbo mais. – Rafaela não disse nada, apenas pegou o baseado e fumou, eu dei o primeiro trago, não senti nada demais e acabei fumando o baseado todo também.

Algum tempo depois, comecei a sentir uma grande sonolência e a dar gargalhadas do nada. Não era como o álcool, era mais esquisito, me senti extremamente leve, não sentia os meus braços, em muito tempo na minha vida, me senti absurdamente calmo.

Jorge acabou se enturmando com uma galera nova da Lapa, fiquei conversando com a Rafaela, que também estava na onda. Começamos um diálogo:

- Sabe, te falei que você está bonita hoje?

- Sim, duas vezes.

- Digo novamente.

- Obrigada... Novamente...

- Gostaria de chegar no futuro logo...

- Por que?

- Porque no futuro eu serei um grande escritor, como Nelson Rodrigues.

- Ou não.

- Com certeza vou ser.

- Como deve ser o futuro, como o mundo deve estar no ano 2000?

- Carros voadores, só penso nisso.

- Acho que vai continuar a mesma coisa de hoje, o ser humano é preguiçoso demais para inventar carros voadores.

- Rafaela, sabia que você é uma garota sem graça?

- Sim, sei.

- Mas mesmo assim eu gosto de você...

- Bem... Eu também...

Depois disso não lembro muito bem o que aconteceu, pois o efeito da maconha estava muito forte, só lembro que após esse diálogo, de alguma forma nós estávamos nos beijando, foi um beijo bem demorado, quer dizer, eu acho. Depois ficamos o resto da noite abraçados, voltei para casa, neste momento são 4 horas da manhã, o efeito da maconha passou um pouco.

Só sei que a partir de agora só estou conseguindo pensar na Rafaela...


Henrique Soares, 18 de Março de 1988.

quarta-feira, 11 de março de 2015

Say My Name


Mudanças são sempre presentes em nosso cotidiano, se não fossem por elas, nossa vida seria chata e monótona (ta certo que para alguns ainda é, mesmo após as mudanças, mas isso não importa), sejam elas para melhor ou para pior, como o seu time de futebol que em um ano foi campeão e que no outro foi rebaixado (exceto se o seu time tiver um bom advogado), normalmente isso acontece por causa das mudanças no elenco da equipe, e na nossa vida isso não é diferente.

Seja por mudança de rotina, amigos ou até de casa, tudo isso pode causar consequências em nossa personalidade, podemos nos tornar pessoas super legais ou pessoas muito insuportáveis com o tempo, eu imaginava quando criança se gostaria de mim mesmo se me encontrasse mais velho, e hoje em dia vejo que a resposta seria: NÃO. Eu nunca esperava me tornar alguém autoritário que odeia tudo, e esse tipo de ser humano era o que eu mais odiava quando criança.

Talvez o meu “eu” de hoje em dia goste do que eu possa me tornar daqui a vinte anos, eu tenho planos para que isso aconteça (colocá-los em prática pode ser outra história), e já que estou parecendo um velho rabugento aos 20 anos, vejo que preciso melhorar de personalidade antes de chegar aos 40.

Tenho algumas teorias que podem justificar a minha constante mudança de personalidade nos últimos meses, pode ser consequência de uma criação não-mimada dos meus pais, alguns momentos de bullying na infância ou até mesmo porque eu me canso rápido demais de algumas coisas e rotinas. Bem, podem ser vários motivos, e atualmente me identifico com várias coisas que retratam a mudança de personalidade de um ser humano, a última delas foi a magnífica série Breaking Bad.

Para quem não viu, Breaking Bad conta a história de Walter White, um professor de química que tem a sua vidinha medíocre e que, após descobrir que tem câncer resolve usar todos os seus conhecimentos químicos para produzir metanfetamina, tudo com o objetivo inicial de deixar dinheiro para a família após a sua morte, porém depois de um tempo, acaba não sendo mais pelo dinheiro, e sim para Walter sustentar o seu próprio ego.

A premissa da série é justamente mostrar a que ponto pode chegar a mudança da personalidade humana, começando com um título bem sugestivo, já que Breaking Bad é uma gíria americana para “Tornando-se Mau”, e é o que realmente acontece no decorrer das temporadas, é como se você pegasse um Mr. Bean da vida e o transformasse no Scarface, e a mudança sutil no decorrer dos episódios faz com que você entenda essa mudança de personalidade do mocinho se tornando um vilão (que é bem melhor retratada aqui do que em Star Wars, chupa George Lucas).

E o genial da série é que nos identificamos com essa mudança do personagem, já que, mesmo sabendo que ele se torna um tremendo filho da puta, ainda torcemos por ele, pois nos vemos ali e entendemos os motivos que o levaram a fazer aquilo. A frase mencionada no titulo desse post é um momento, já na última temporada, que mostra definitivamente a mudança de personalidade do personagem, onde ele deixou totalmente de ser Walter White para se tornar o seu pseudônimo Heisenberg.

Essa é nossa vida, uma constante mudança, às vezes não tão radical como retratado em Breaking Bad, mas que existe, mesmo nós não percebendo tanto, sempre está ali, e assim como na série, nossos amigos e familiares percebem antes de nós mesmos, não sei se é possível parar com essa constante mudança, só espero manter a consciência e não sair por aí fabricando metanfetamina.

quinta-feira, 5 de março de 2015

Tudo é Mais Belo à Noite

Apesar de seguir um percurso diário maçante e repetitivo de mais de quarenta minutos de volta para casa dentro do trem enquanto ouço podcasts ou álbuns completos, pelo menos uma vez por semana volto de ônibus (já que aos sábados os trens não funcionam direito), e apesar de preferir trens, o percurso de volta para casa de ônibus tem algo a mais, a apreciação da cidade à noite.

Como pego o ônibus à noite e o mesmo segue pela Avenida Brasil, consigo admirar a estrada, o mar, shoppings e as luzes, penso como tudo fica mais belo nesse horário, aquele clima de mistério que te faz imaginar toda uma trama de detetives bem noir dos anos cinqüenta, ou até mesmo encontrar inspiração para escrever textos como esse.

À noite as luzes surgem e brilham mais, o silêncio é mais dominante, seja em sua casa ou até mesmo na rua, tão dominante a ponto de o som de seus pensamentos se tornarem altos o suficiente para você não só ouvi-los bem, mas aprofundá-los dentro de uma viagem por muitas vezes melancólica ou nostálgica.

Pensar é como as luzes à noite, nem todos conseguem enxergar a beleza (ou até mesmo graça) nisso, mas basta um esforço para ver que, apesar de tudo, existe beleza, tanto nas luzes da cidade quanto em nossa mente.

Até mesmo o ouvido musical melhora, começamos a prestar mais atenção em melodias ou nas letras, começamos a imaginar sobre a vida daqueles outros passageiros que estão no interior do ônibus naquele momento, e que eles estão ali, parecidos com você, porém meros desconhecidos, tão longe e tão perto, até que imaginamos a vida que escolhemos, o nosso futuro, família, amigos, e a partir daí surgem os diversos questionamentos, até que nos vemos discutindo com nossa própria consciência.

É incrível como essa linha de raciocínio pode se estender além do tempo de percurso do ônibus até o final a pé, ainda pensamos sobre a vida, sobre nós, sobre tudo, sobre como é bom deitar em nossa cama após um dia cansativo, ou como será espetacular o Season Finale daquela série que você irá assistir assim que chegar. Até que tiro os fones do ouvido e retorno à realidade, os pensamentos se acalmam por alguns momentos, finalmente estou em casa...