terça-feira, 29 de setembro de 2015

Minha Vida Injusta - Parte 11: 29 de Setembro de 2001



Lá estava eu, no mesmo bar de sempre, onde eu comecei a frequentar a alguns meses atrás, sempre vou pra lá após o trabalho, e hoje não foi diferente. Costumo pedir Whisky e passar esse tempo sozinho fumando cigarros. Eu pensava sempre no Jimmy, comecei a frequentar o bar desde quando ele morreu no ano passado. Ainda não consegui me conformar com a sua morte, mesmo após os assassinos terem sido presos e condenados a 60 anos de prisão sem direito a redução de pena. Não paro de pensar naquela noite, a culpa foi minha, se eu tivesse ficado perto dele o tempo todo, ele ainda estaria vivo.

Na tv do bar estava passando alguma reportagem sobre o ataque terrorista que aconteceu a algumas semanas atrás nos Estados Unidos, na verdade isso está passando o dia inteiro em todos os canais. Os aviões bateram nas torres gêmeas e as derrubaram, imagens de pessoas pulando dos prédios mexeram comigo, eram pessoas que não tinham nada a ver com questões políticas ou religiosas, elas estavam ali apenas fazendo o seu trabalho. É triste pensar na situação em que suas famílias estão passando desde o dia em que isso aconteceu, eles não mereciam este sofrimento. Enquanto estava distraído pensando e fumando um cigarro, alguém se aproximou de mim.

- Henrique? É você mesmo? Nossa, quanto tempo! – Quase não reconheci pela voz, tive que redirecionar o olhar para saber quem era.

- Rafaela... Oi. – A cumprimentei, ela continuava bonita, mas não falei isso pra ela.

- Quanto tempo faz? Uns 10 anos? – Ela perguntou enquanto se sentava na minha frente na mesa redonda do bar.

- 8 anos, na verdade. – Respondi enquanto ofereci um copo de Whiskey.

- Fiquei sabendo do seu pai e do Jimmy também... Cara, eu fiquei muito triste por isso, gostaria de ter ido aos enterros, mas comecei a trabalhar então não deu.

- Está trabalhando aonde?

- Sou uma espécie de caça talentos de modelos, é até legal. E você? Ainda tá no jornal? Já começou a escrever lá?

- Sim, estou lá, mas ainda to só na edição, não comecei a escrever, mas sinto que em breve isso vai acontecer. – Eu percebi que não estava conseguindo olhar em seus olhos, parei para tomar um gole e dar um trago. – Você ainda tá namorando aquele cara? Qual era o nome dele mesmo?

- Rodrigo. Não estou mais com ele, não durou muito tempo, só alguns meses, ele era um idiota. E você? Casou-se?

- Ainda não, mas estou namorando com a Luana. A da reabilitação, lembra dela?

- Sim, ela tinha até um namorado naquela época, né?

- É, mas não deu certo. Já estamos juntos há algum tempo, ela está morando na casa da minha mãe. Não queria deixar minha mãe sozinha, ela já está com certa idade, então a Luana se ofereceu para olhá-la quando eu não estivesse lá.

- Nossa, cara, isso é ótimo, a Luana sempre pareceu ser uma pessoa legal... Eu estou solteira, ainda não encontrei um grande amor.

- Se nós não tivéssemos brigado, acho que estaríamos juntos até hoje... Eu poderia ter sido o seu grande amor... Você parecia ser o meu... – Não sei o motivo de eu ter dito isso, simplesmente falei sem pensar, talvez tenha sido o efeito do álcool.

Houve uma pausa, Rafaela abaixou a cabeça e começou a brincar com os cabelos, lembro que ela tinha essa mania quando se sentia envergonhada.

- Henrique, preciso ser sincera com você... Sinto a sua falta, sinto falta do seu beijo, de seus carinhos, de tudo ligado a você. – Ela disse num tom de voz baixo e acuado, não olhou diretamente para mim.

- Eu também senti a sua falta... Por muito tempo... Mas consegui superar... E espero que você também consiga. Torço para você encontrar alguém algum dia. – Eu já estava meio bêbado.

- Você não sente mais nada por mim? – Dessa vez ela olhou nos meus olhos.

Eu vi em seus olhos que ela estava querendo uma responda sincera, então resolvi responder com toda a razão e sinceridade do mundo:

- Não. – Quando eu disse isso, Rafaela desviou o seu olhar.

- Espero que você seja muito feliz com a Luana... Ela é uma mulher de sorte.

- Obrigado. Vou indo agora.

Quando levantei, Rafaela segurou o meu braço.

- Espera! – Ela exclamou. – Não quero perder contato com você novamente... Anota o meu número novo. Vamos nos encontrar algum dia desses?

- Rafaela... Acho que não será necessário. Tudo na vida acaba, temos que nos conformar. Não espero te encontrar novamente. Acho que isso é um adeus.

Ela soltou o meu braço e me deixou ir, quando estava me redirecionando para a saída, percebi que ela havia entendido o que eu acabara de dizer.

- Ok... Então... Adeus... – Ela disse meio que com vergonha.

Chegando em casa, vi minha mãe abraçando a Luana e sorrindo, ela gostava muito da Luana, ainda mais agora que as duas estavam morando na mesma casa. Quando me viu entrar, minha mãe chegou perto de mim, me abraçou e me beijou.

- Parabéns, meu filho! – Ela disse, estava bem animada.

- Parabéns por quê? Hoje não é meu aniversário e nem ganhei na loteria. – Eu realmente não estava entendendo nada.

- Calma, vou lhe explicar. Henrique, vem cá. – Luana me puxou e me guiou até o quarto.

Eu estava apreensivo, parecia ser uma notícia boa, mas mesmo assim duvidava, estava sendo raro eu receber notícias boas ultimamente.

- Henrique... Estou grávida. – Ela disse.

Eu não soube o que pensar naquela hora, mas fiquei muito feliz, estou feliz até agora. Naquele momento a única reação que eu tive foi abraçá-la bem forte e lhe dizer as palavras mais sinceras que já falei para ela em toda a minha vida:

- Luana, eu te amo...

Henrique Soares, 29 de Setembro de 2001.